Arquivo da Categoria: Poesia e Arte em geral; Antologia de ideias

Natureza morta

É uma visão artística. Imaginem-se a contemplar uma paisagem ecosistemática, onde borboletas voam, animais e uma fauna diversificada e multicolor cobrindo a vista, com raios de luz atravessados. Imaginem-se no centro dessa biosfera. E como se tudo de repente congelasse; todos esses elementos do natural caíssem, sem vida, ainda que mantendo o seu esplendor e só aí fosse possível reconhecer os seus recantos mais vivos. Ou seja, aquela vivacidade que permanece imperceptível a quem olha pelas mais variadas razões – deleite, beleza, decoração, ideologia, filosofia, … Mas somente aquela visão de artista, uma mágica autópsia é capaz de desvendar as mais obscuras e poéticas veracidades.

Boris


As rimas

Normalmente, ao escrever um poema com rimas, este ganha um certo ritmo e entoação, por elas conferido. Bastaria mudar apenas as apalavras rimantes e este ler-se-ia de maneira totalmente diferente. Quando não rimam, a sua leitura e entoação é muito mais natural e fluida, tal como se fosse um romance, adquirindo um tom mais íntimo e pessoal, mais natural para quem o lê, ganhando também um significado mais próximo.

Existem ainda os poemas com rimas subtis e serenas, de tal forma que tenham a tal entoação íntima, mas que acabe por surgir um efeito de rima sem que quem o lê ou diga se dê conta, como que um eco, ou melhor, um som misturado no meio de tantos outros semelhantes que só é perceptível ao ecoar – acabamos por não perceber ou reconhecer as rimas, como se se estivessem escondidas, mas sentimos, inconscientemente, a sua presença, trazendo uma certa sensualidade e densidade à poesia rimada.

Boris


A queda

Falo de escrever. Escrever um poema; como diria Fernando Pessoa, e muitos outros, o poeta é um vigarista. Mesmo falando a mais sublime e bela verdade está a mentir. É burlão e falacioso. Mas fá-lo naturalmente, com espontaneidade, e até com um certo amor inocente por essa tal condição. E fá-lo tão bem e insistentemente que acaba ele próprio vigarizado e tropeça na sua própria máxima. É como um ilusionista que, ao praticar em frente ao espelho, se ilude a ele próprio; a realidade, todos os pormenores, objectos, acontecimentos, noções que fazem parte do mundo superficial, terreno, são confundidas com as do seu mundo construído, falso – a ilusão – e, no fim, não sabe o que realmente vê, o que realmente vive, enquanto escreve.

Na busca incessante de uma palavra, ou melhor, um significado, cuja palavra não existe que o represente, escreve versos, rimas – rodeios e floreados -, os mais eminentes e belos amontoados de palavras, para, no fundo, tentar chegar ao tal significado, enganando-se e disfarçando a sua própria frustração. E então, de tão iludido que ficou, de tão embebido nas suas próprias palavras acaba por acusar todo o resto do mundo, todas as pessoas, por mais distantes que sejam, por aquilo que escreveu e angustia-se como incompreendido, culpando-as por tal.

Boris


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