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Alice no País das Maravilhas

A publicidade, com a presença de múltiplas mensagens subliminares, cujas técnicas foram evoluindo imenso, desde o século passado, ao contrário, por exemplo, da propaganda comunista da China, ou a propaganda nazi, não tem uma direcção. Não existe uma crença, uma maneira de pensar que seja manipulada. Com tamanha quantidade de informação arremessada de todos os lados, em todas as direcções, em todas as cores e formas, passa-se, assim, à criação de um mundo. É fascinante toda a panóplia de imagens em catadupa, quando vemos, por exemplo as ruas de Hong-Kong, Tokio ou Nova Iorque – Tal como Alice no País das Maravilhas, um mundo fantasioso, um universo paralelo, onde as pessoas, os cenários, os diálogos, e tudo o que está presente na confecção da publicidade realmente existe e forma esse mundo.

Subitamente, passamos a viver nesse mundo e o real, onde temos os pés assentes, passa a ser secundário. Isso contribui, penso, para a massificação da rotina de palas nos olhos, na vida profissional, familiar e social, levando a um esvaziamento da pessoa enquanto indivíduo; ela permanece de corpo neste mundo, que é incapaz de trazer qualquer tipo de satisfação ou realização, então abona-se na rotina, para se focar no mundo da fantasia onde se obtém a satisfação, através do materialismo, do sexo, e de subsequentes lavagens gratuitas ao cérebro, deixando-o num estado de inactividade relaxante, isto oferecido por agentes como a televisão e internet, em grande parte.

Eles querem que nos sejamos assim. Eles, que vivem lá inteiramente e dependem do cidadão comum para alimentar e fazê-lo girar.

Boris


Natureza morta

É uma visão artística. Imaginem-se a contemplar uma paisagem ecosistemática, onde borboletas voam, animais e uma fauna diversificada e multicolor cobrindo a vista, com raios de luz atravessados. Imaginem-se no centro dessa biosfera. E como se tudo de repente congelasse; todos esses elementos do natural caíssem, sem vida, ainda que mantendo o seu esplendor e só aí fosse possível reconhecer os seus recantos mais vivos. Ou seja, aquela vivacidade que permanece imperceptível a quem olha pelas mais variadas razões – deleite, beleza, decoração, ideologia, filosofia, … Mas somente aquela visão de artista, uma mágica autópsia é capaz de desvendar as mais obscuras e poéticas veracidades.

Boris


As rimas

Normalmente, ao escrever um poema com rimas, este ganha um certo ritmo e entoação, por elas conferido. Bastaria mudar apenas as apalavras rimantes e este ler-se-ia de maneira totalmente diferente. Quando não rimam, a sua leitura e entoação é muito mais natural e fluida, tal como se fosse um romance, adquirindo um tom mais íntimo e pessoal, mais natural para quem o lê, ganhando também um significado mais próximo.

Existem ainda os poemas com rimas subtis e serenas, de tal forma que tenham a tal entoação íntima, mas que acabe por surgir um efeito de rima sem que quem o lê ou diga se dê conta, como que um eco, ou melhor, um som misturado no meio de tantos outros semelhantes que só é perceptível ao ecoar – acabamos por não perceber ou reconhecer as rimas, como se se estivessem escondidas, mas sentimos, inconscientemente, a sua presença, trazendo uma certa sensualidade e densidade à poesia rimada.

Boris


Sede de simplicidade

São os pormenores que nos enchem a vida; o respirar de uma mulher, o cheiro de uma casa, o tilintar de chaves ou apenas aquela cor, única, no seu tom, no seu brilho, insubstituível. São estas pequenas coisas que realmente nos fazem existir, enquanto seres espirituais e nos enchem esta sede de emoções e realizações factuais a que chamamos “vida”, pois são as únicas que conseguimos absorver totalmente; por serem tão simples e, mesmo que só a tenhamos sentido, ouvido, (…), uma só vez, assimilamo-las quase atomicamente – ficam totalmente na nossa memória –, não será preciso aprender a viver com elas, não há nada para reflectir sobre elas, mas somente senti-los e recordá-los, pois são constituídos apenas, só e unicamente pela sua existência, nada mais.

Uma grande questão filosófica, um sentimento, uma actividade para a vida. Tudo isso não passam de devaneios (não querendo com isto, menosprezá-los, pois são também eles essenciais só com eles nos conseguiremos afastar do absurdo de viver, em direcção ao absurdo da vida, se é que me entendem…, um remédio anti-prosaico). São grandes montanhas das quais nunca passaremos do sopé. Tanto tempo perdemos a tentar escalá-la, para, no fim, acabarmos mais abaixo de onde começámos. Tanto da nossa vida serve para ficarmos a saber menos do que à partida. Mas essa queda é importante, no entanto, pois é ao cair que nos apercebemos melhor do que existe para além de nós – a nossa vida inteira a passar diante de nós – e do que nos lembramos?: de pormenores. À medida vamos desaprendendo a nossa presença até morrermos ignorantes, à medida que sobre ela formos reflectindo, passamos a apreciar melhor todos esses pormenores que passam constantemente por nos, de forma a preencher esse colossal vazio.

São essas pequenas fotografias do senso que vou registando, com que crio poesia. Vou-os juntando, tijolo a tijolo, até construir um mundo. Vários mundos. É precisamente isso que me alimenta, que me faz viver, que faz rodar esta engrenagem e mover a loucomotiva que sou. De mundo em mundo. De poema em poema.

Boris

Nota:

  • Loucomotivo: Da junção da palavra “louco” (dotado de loucura, que transcende o seu pensamento à inevitabilidade da sua condição enquanto ser) e da palavra “moto” (do latim, “movimento”); aquele que se move e possui loucura. Também por vezes chamado de ‘ser racional’ ou ‘humano’.

A queda

Falo de escrever. Escrever um poema; como diria Fernando Pessoa, e muitos outros, o poeta é um vigarista. Mesmo falando a mais sublime e bela verdade está a mentir. É burlão e falacioso. Mas fá-lo naturalmente, com espontaneidade, e até com um certo amor inocente por essa tal condição. E fá-lo tão bem e insistentemente que acaba ele próprio vigarizado e tropeça na sua própria máxima. É como um ilusionista que, ao praticar em frente ao espelho, se ilude a ele próprio; a realidade, todos os pormenores, objectos, acontecimentos, noções que fazem parte do mundo superficial, terreno, são confundidas com as do seu mundo construído, falso – a ilusão – e, no fim, não sabe o que realmente vê, o que realmente vive, enquanto escreve.

Na busca incessante de uma palavra, ou melhor, um significado, cuja palavra não existe que o represente, escreve versos, rimas – rodeios e floreados -, os mais eminentes e belos amontoados de palavras, para, no fundo, tentar chegar ao tal significado, enganando-se e disfarçando a sua própria frustração. E então, de tão iludido que ficou, de tão embebido nas suas próprias palavras acaba por acusar todo o resto do mundo, todas as pessoas, por mais distantes que sejam, por aquilo que escreveu e angustia-se como incompreendido, culpando-as por tal.

Boris


Sentimento de descoberta (Quanto ao texto “Nova velha casa”)

Quantas vezes não andei eu perdido? Não diria necessariamente perdido, pois não falo da procura de nenhum destino, nada procurava. Divagar será uma palavra mais certa; Quantas vezes não andei eu por ai a divagar?, explorando as ruas de Lisboa ou os matos de Sintra, essas praias e esses prédios escondidos e desconhecidos… Vou andando, seja a caminhar ou a correr, com pressa ou com a calma de um Sábado desgraçado. Vou analisando esporadicamente os detalhes, as referências, os pormenores e os ambientes – tudo o que possa relacionar aquele local comigo ou com o meu propósito nessa altura. E vou reflectindo sobre as cores, o tempo, a luz, o comportamento da natureza e das pessoas ou, simplesmente, a bela imagem composta – “paisagem”, como a apelidamos. Vejo tudo isto pela primeira vez, mas… se eu sentir o vento na cara? Tantas vezes o senti, não será nada de novo. Mas a simples inércia desta descoberta leva-me a reflectir sobre isso: o que é o vento? Que sensação será esta que sinto quando ele me bate na cara? Porque é ele tão fresco quando esta tanto calor? Talvez não ocorressem na minha turbilhosa mente tais ponderações se não tivesse sentido eu o vento neste lugar diferente. Diferente apenas. O vento é o mesmo. Tomo como exemplo mais próximo a visita de si, que lê, ao lar de outrem pela primeira vez: considerando um lar de género comum, com portas e paredes e janelas e tecto. Tudo isso já você viu inúmeras vezes. Mas que janelas serão estas? E, aí, parte para uma observação detalhada inconsciente de todos esses pormenores, sem se dar conta… ou não; observa esta ou aquela mesa, um ramo de flores, a mobília… é tudo novo e fascina-o (positiva, negativa ou neutramente). Até que acaba por passar tanta vez diante dessa tralha que já nenhuma diferença faz. Passa apenas a criar um ambiente natural e indiferente. Mas basta a simples mudança de um armário, o fecho de uma janela que sempre esteve aberta para essa sensação voltar e tais ponderações voltarem à sua cabeça – ‘Mas que sitio mais estúpido para colocar um armário!’; ‘Que bonito, fechaste a janela… Formidável!’.

É absolutamente necessário à reflexão este sentimento de descoberta que é tão deslumbrante e essencial a cada pessoa. Imagina o leitor, agora, um desses meus divagares, até que, após profunda reflexão e admiração descubro que tal “novo e descoberto” sítio que tenho permanecido a observar e a julgar era nada menos que um local que, não o sendo, lhe gosto de chamar casa. Tanta coisa que por mim passaram, impreterivelmente, todos os dias, tantas pessoas desconhecidas todos os dias por lá andaram. Todo esse quadro, toda essa paisagem a que me habituei a dar importância apenas à sua presença, nada mais, foi para mim novo durante esse período de abstracção amnésica. E descobri, espantado, o que nunca lhe tinha visto, pois diferentes olhos vêem diferentes perspectivas e muitas coisas só nessa perspectiva se podem observar. Daí a necessidade de mudarmos os olhos por vezes, pois muitas dessas vezes, os hábitos, as disposições e comportamentos não estão aparentes à nossa perspectiva mundana.

Após este acontecimento escrevi este texto que relata uma dessas “descobertas”:

“(…) reparo naquele vidro, intacto e brilhante. Áurea agreste a todos estes tristes caminhantes; celeste à minha visão. Uma gota de paraíso pairando na torneira, sem cair nunca, sem evaporar, esperando uma boca sedenta. E lá vejo dois olhos. Agora realizo que esta cidade, estas ruas, que tanta vez me viram passar, esta natureza morta, que todos os dias, impreterivelmente passou diante da minha visão era a cidade escura, que sempre tratei por tu, sem nunca a conhecer. A cidade onde fui mesmo sem ser. Onde vivi sem me dar conta.

E lá vejo dois olhos. Dois olhos que tão bem conheço do meu espelho.”

Boris

( http://sabadodesgracado.wordpress.com/2009/11/07/nova-velha-casa/ )


Ponderações sobre o quotidiano de um ponto mais elevado do trajecto natural (cont.)

VII

Porque não é a laranja cor-de-cenoura?
Se apenas esta nunca é verde…

VIII

Muitos grandinhos já eu vi;
Aparentemente grandes,
Mas vítimas de um sufixo…

IX

Tantas vezes nasce,
Sem nunca morrer.
Mas vive afastado,
Foge
E esconde-se todos os dias.

Qual o preço da imortalidade?…

Boris


Sonho de viver (ensaiado)

Irmãos meus! Sendo vós também filhos do mesmo povo que nesta Terra habita, certamente estais, assim como eu, cuidando para que os futuros “Nós” logrem de uma melhor vida que a que vós levais agora… Se não estais percebendo aonde quero chegar, pois então passarei a explicar-vos.

Que pensaríeis se vos perguntasse “que vida será melhor para nós?”? Certamente me dirão, que uma vida estável e serena, na qual possamos ser felizes… Estareis certos, sendo essa uma resposta tão superficial, mas…, o que significará a felicidade se não tão-somente uma estipulação? Pois já não é hoje uma condição espiritual (psicológica, emocional, ou como lhe quereis chamar), mas uma estação terminal, que, para lá chegar tereis que entrar em determinado comboio, em certo sítio a certa hora, e esse, que acabará, inevitavelmente, por ter uma avaria e ficareis presos, quedos, no mesmo, mesmo sítio, até que este humilde pedante vos abra uma porta desse vagão. Ou o comboio arranque para vos levar um pouco mais à frente, onde haverá, certamente uma falha na linha ou um precipício à vossa espera.

Reflecti agora um pouco sobre a vida que tendes. Pensai se realmente quereis ir sentados num comboio, apreciando a paisagem que passa lentamente por vós, sem a possibilidade de sair e a viverdes. Não preferis antes atravessar o mato pelo vosso próprio passo?
Boris

Ponderações sobre o quotidiano de um ponto mais elevado do trajecto natural (cont.)

IV
O futuro já não é o que era,
Quando, agora, tudo acaba por ter um fim…
E a minha máquina do tempo deu o berro.
Serei eu ontem o que fui amanha?…

V
Atirei uma pedra ao mar.
Infelizmente, essa pedra era eu,
E… não sei nadar…

VI
Quanto mais água transportarão os meus sapatos,
Se não tenho eu a cara à chuva
E o peito encharcado?

Apenas quando o sol me saudar com um aceno…

Boris


Ponderações sobre o quotidiano de um ponto mais elevado do trajecto natural

I
Quantas mãos passaram nestes interruptores?
Quantas luzes vivem subjugadas à vontade dos insignificantes seres humanos?
Quantas sombras não são apenas imaginação?
Quantas portas não têm boca?
Quando nem por si só os buracos existem, mas são eles próprios a ausência do habitual…

II
Flor azul-viola.
Quando mentes, sorris assim…
De uma maneira estúpida e farta.
Penso muitas vezes com serenidade:
Hei-de pisar-te!

III
Telescópios em segunda mão.
Astronautas reformados.
A lua fugiu.
Os foguetões passaram um mau bocado…

Boris


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