Quantas vezes não andei eu perdido? Não diria necessariamente perdido, pois não falo da procura de nenhum destino, nada procurava. Divagar será uma palavra mais certa; Quantas vezes não andei eu por ai a divagar?, explorando as ruas de Lisboa ou os matos de Sintra, essas praias e esses prédios escondidos e desconhecidos… Vou andando, seja a caminhar ou a correr, com pressa ou com a calma de um Sábado desgraçado. Vou analisando esporadicamente os detalhes, as referências, os pormenores e os ambientes – tudo o que possa relacionar aquele local comigo ou com o meu propósito nessa altura. E vou reflectindo sobre as cores, o tempo, a luz, o comportamento da natureza e das pessoas ou, simplesmente, a bela imagem composta – “paisagem”, como a apelidamos. Vejo tudo isto pela primeira vez, mas… se eu sentir o vento na cara? Tantas vezes o senti, não será nada de novo. Mas a simples inércia desta descoberta leva-me a reflectir sobre isso: o que é o vento? Que sensação será esta que sinto quando ele me bate na cara? Porque é ele tão fresco quando esta tanto calor? Talvez não ocorressem na minha turbilhosa mente tais ponderações se não tivesse sentido eu o vento neste lugar diferente. Diferente apenas. O vento é o mesmo. Tomo como exemplo mais próximo a visita de si, que lê, ao lar de outrem pela primeira vez: considerando um lar de género comum, com portas e paredes e janelas e tecto. Tudo isso já você viu inúmeras vezes. Mas que janelas serão estas? E, aí, parte para uma observação detalhada inconsciente de todos esses pormenores, sem se dar conta… ou não; observa esta ou aquela mesa, um ramo de flores, a mobília… é tudo novo e fascina-o (positiva, negativa ou neutramente). Até que acaba por passar tanta vez diante dessa tralha que já nenhuma diferença faz. Passa apenas a criar um ambiente natural e indiferente. Mas basta a simples mudança de um armário, o fecho de uma janela que sempre esteve aberta para essa sensação voltar e tais ponderações voltarem à sua cabeça – ‘Mas que sitio mais estúpido para colocar um armário!’; ‘Que bonito, fechaste a janela… Formidável!’.
É absolutamente necessário à reflexão este sentimento de descoberta que é tão deslumbrante e essencial a cada pessoa. Imagina o leitor, agora, um desses meus divagares, até que, após profunda reflexão e admiração descubro que tal “novo e descoberto” sítio que tenho permanecido a observar e a julgar era nada menos que um local que, não o sendo, lhe gosto de chamar casa. Tanta coisa que por mim passaram, impreterivelmente, todos os dias, tantas pessoas desconhecidas todos os dias por lá andaram. Todo esse quadro, toda essa paisagem a que me habituei a dar importância apenas à sua presença, nada mais, foi para mim novo durante esse período de abstracção amnésica. E descobri, espantado, o que nunca lhe tinha visto, pois diferentes olhos vêem diferentes perspectivas e muitas coisas só nessa perspectiva se podem observar. Daí a necessidade de mudarmos os olhos por vezes, pois muitas dessas vezes, os hábitos, as disposições e comportamentos não estão aparentes à nossa perspectiva mundana.
Após este acontecimento escrevi este texto que relata uma dessas “descobertas”:
“(…) reparo naquele vidro, intacto e brilhante. Áurea agreste a todos estes tristes caminhantes; celeste à minha visão. Uma gota de paraíso pairando na torneira, sem cair nunca, sem evaporar, esperando uma boca sedenta. E lá vejo dois olhos. Agora realizo que esta cidade, estas ruas, que tanta vez me viram passar, esta natureza morta, que todos os dias, impreterivelmente passou diante da minha visão era a cidade escura, que sempre tratei por tu, sem nunca a conhecer. A cidade onde fui mesmo sem ser. Onde vivi sem me dar conta.
E lá vejo dois olhos. Dois olhos que tão bem conheço do meu espelho.”
Boris
( http://sabadodesgracado.wordpress.com/2009/11/07/nova-velha-casa/ )