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Fábulas (Mote): O Pássaro

Mote:

O pássaro

Voava. Sempre voou. Durante toda a sua vida nada mais fez que voar; Viu o frio e o calor. Sentiu países por aí fora. Mergulhou por todos os ventos e sóis. Provou o tropical e o oriental. Aliás, toda a História não era senão aquilo que se passava enquanto ele voava. Poder-se-ia até dizer que o tempo passava consoante o bater das suas asas.

Quantas voltas deu ele ao mundo? Qual mundo? Que é para ele o mundo?

Há quem diga que são os pássaros os donos da liberdade, pois voam desafrontadamente para onde quiserem, sem preocupações. Mas como podem ser livres se não têm outra escolha, se nada podem querer nem ter preocupações, se são pássaros e obedecem ao instinto; voam. Nunca por um segundo de toda a sua história pensou em fazer outra coisa, porque não pode. Nasceu para voar, não para pensar…

Certo dia, e sem porquê (de tão pássaro que é, não pode haver porquês), parou de bater as asas – o tempo parou. Poisou numa qualquer singela árvore algures nesse mundo seu e estava sozinho. E nesse mesmo momento ganhou consciência. E tudo o que lhe pesou na consciência foi a sua vida – o seu voar (que mais?). Ganhou consciência de que voara e o que sentia ao voar era o Éden, o seu Nirvana. Ao voar sentia-se ele próprio, o mais feliz que tudo, sentia a maior das liberdades. O sendo que todo o tempo voara, tinha atingido um êxtase, um clímax. O topo da satisfação se é que poderá um pássaro a ter.

(…)

Até Hoje nunca mais voou…

Será que se levantasse voo de novo continuaria a ter consciência? Se não, voltaria algum dia a pousar outra vez? Continuaria feliz ou apenas estando pousado? Não ele sabia…

Lá continua ele, Hoje, pousado no ramo de uma qualquer árvore. Ou de todas as árvores.

Dividido entre o voar e o saber que voa.

Entre o ser feliz e o saber ser feliz…

Boris


Empaticamente falando (completo)

Nessa noite, após uma baforada de cachimbo, impregnando na mente o mais doce privilégio químico (acompanhado de uma tenra confabulação), surgiu, empunhando a palavra, e em fúria eruptiva, o tal galifão que se mantivera reflectivo e absorvente da nossa empática disputa verbal:

-Suas palavras não passam de meras e forçadas metáforas! Quem ousa fazer uso de tão belas sílabas e desses preciosos vocábulos para um fútil requinte do discurso! Ah, agiota, vil sofista! que fazeis imprecisas incisões na nossa cristalina língua! – e calou-se, tal como nós nos tínhamos calado mal ele abriu a boca.

Será de bom grado dizer que terminou em tom Shakespeariano, embora não saiba eu que será tal coisa.

-A quem se dirige caro colega? – perguntaram as nossas testas franzinas e sobrancelha erguida.

-Pois será a esse que se diz poeta! – e testas que falam alto! – Para ele eu falo e me agito. Pois são essas escritas, ah, malditas escritas!, a causa deste ardor na minha alma e consciência! Todas elas vis e mesquinhas na sua essência. Pois sim que possuem essência! Integras mas perversas! Toda a sua beleza, eminência e perfeição as fazem penetrar no recanto mais obscuro de mim, nos subterfúgios do ser… São completas; nada lhes falta, mas de tanto conteúdo, nenhum conteúdo tem

-Previsivelmente inesperada, a sua intervenção… Como podeis falar em alma, se não escrevo senão simples relatos do que observo dentro e fora de mim?

-Não tente enganar nem corromper mais a minha pessoa! Eu bem conheço a sua poesia, cada verso infame. E como conheço!

-Ahahah! – gargalhei, propositadamente. Ou será que não?… – O Riso é o caminho mais perto para o Sol. E como me ilumina você! Ah, que seria do ser humano sem o riso… que formigas obstinadas seríamos… Quantas desgraças não seriam ainda hoje choradas avidamente não houvesse um génio que as desfrutasse e ridicularizasse… Agradeço-lhe meu amigo por me fazer rir neste belo serão.

-Mas… O que… Não o compreendo! – disse num misto de surpresa e ultraje centrifugados.

-Ahá! Finalmente as gonorreias da verdade eruptam em glória! Como podereis entender o que escrevo senão entendeis o meu comentário?

-Mas é essa mesma volúpia que me consumiu! – fervilhando já em estado de xícara – toda a vida não passei de um truão mundano; vivi sempre pairando delicadamente na felicidade… corrijo!, bem-estar!; tinha esposa, filhos, dinheiro, amigos. Fazia exercício, comia em bons restaurantes uma vez por semana – caprichos gastronómicos, lia o jornal todos os dias, comentava as notícias, consumia a música e literatura recomendadas. A minha casa era grande e requintada onde, por vezes, organizava jantares com várias pessoas, muitas pessoas, que me respeitavam; amigos conhecidos, boas pessoas, bons vivãs.
Hoje…
Se dantes agia como era suposto e estipulado, hoje não dou dois passos sem parar e congeminar se é realmente este o sítio onde devo por os pés e daí passar para se estão os meus sapatos suficientemente rotos. Hoje, descanso no luxo de um chão de cimento onde organizo serões de filosofia cómica, rio-me comigo mesmo; não preciso de amigos se não existem para mim notícias, não preciso de as comentar, nem encontro nada na minha presença, ou chamem-lhe vida, se estiver eu vivo, não sei…, nada encontro na minha presença neste cubículo Terra que mereça a pena discutir trivialmente. Quem se interessaria?  Amo-me apenas a mim naquilo que me é exterior e aquilo que dos outros me pertence e os meus rebentos são apenas as raízes que crio no betão onde durmo e os frutos da minha imaginação. Como pudestes fazer-me isto? Pois agora ela me persegue, essa megera intruja da imaginação. Mal sabia eu da sua existência… E aquele espelho que tenho na cabeça… quando realmente olhei para ele e vi o mundo reflectido nas minhas costas… aí! Foi aí que senti um arrepio repulsivo, um desprezo descomunal pela minha existência. Aí “observei” realmente a realidade quando tinha passado todo o tempo apenas a “ver”. Pois é a realidade apenas aquilo que é e não aquilo que os nossos olhos dizem. Pois é a verdadeira expressão aquela que está sozinha e nada diz.

-Mas, então, não se sente melhor nesse estado? – questionou nosso colega. Também eu tinha essa intenção… não de perguntar, mas de saber a resposta.

-E o que é sentir?… vivo num paradoxo… tal como quem toma um remédio: vou ficando melhor – mente e espírito – mas ficará sempre aquele sabor acre na língua. Aquele sabor acutilante e ignóbil que me remói o dia inteiro e me leva a querer voltar a estar doente só para não o sentir. Voltar ao impasse, mas um impasse mais doce.

Fiquei algo reflectivo. Realmente acho que não passo de um medicamento…. Sendo assim preferia ser um comprimido, insosso. Mas nada posso fazer se minha mãe é uma farmácia de segunda categoria:

-Meu humilde arquimandrita, não pedirei desculpa nem tentarei redimir-me de meu erro. Pois não foi um erro; acertei mesmo. Todo o mal que lhe causei foi propositado. Não precisa de me agradecer… E como não me sei expressar devidamente numa linguagem normal, dir-lhe-ei apenas este poema:

Quem és tu pessoa?
Que te ris do que digo,
Do que falo.
Se o meu grito é apenas uma esmola
Que me deu esse cego mendigo…

E se me calo,
Perdes essa ânsia de saber tocar tambor.
De saber tocar a dor
Com desejo e sabor.

Se cuspo saudade,
Logo acharás a infância repugnante.
Mas de repente,
De rompante,
O triciclo ganha vontade,
Quando achares a tua verdade
Na minha saliva ignorante.

Quantas vezes não fui mais do que sei…
E quanto mais terei de repetir a palavra “palavra”
Até perceberes que nada pronunciei.
Apenas tentei que ela se ouvisse.

-Obrigado por me ensinar a ler. E a ser infeliz… – disse ele, adormecendo.

Boris


Empaticamente falando

Nessa noite, após uma baforada de cachimbo, impregnando na mente o mais doce privilégio químico (acompanhado de uma tenra confabulação), surgiu, empunhando a palavra, e em fúria eruptiva, o tal galifão que se mantivera reflectivo e absorvente da nossa empática disputa verbal:

-Suas palavras não passam de meras e forçadas metáforas! Quem ousa fazer uso de tão belas sílabas e desses preciosos vocábulos para um fútil requinte do discurso! Ah, agiota, vil sofista! que fazeis imprecisas incisões na nossa cristalina língua! – e calou-se, tal como nós nos tínhamos calado mal ele abriu a boca.

Será de bom grado dizer que terminou em tom Shakespeariano, embora não saiba eu que será tal coisa.

-A quem se dirige caro colega? – perguntaram as nossas testas franzinas e sobrancelha erguida.

-Pois será a esse que se diz poeta! – e testas que falam alto! – Para ele eu falo e me agito. Pois são essas escritas, ah, malditas escritas!, a causa deste ardor na minha alma e consciência! Todas elas vis e mesquinhas na sua essência. Pois sim que possuem essência! Integras mas perversas! Toda a sua beleza, eminência e perfeição as fazem penetrar no recanto mais obscuro de mim, nos subterfúgios do ser… São completas; nada lhes falta, mas de tanto conteúdo, nenhum conteúdo tem

-Previsivelmente inesperada, a sua intervenção… Como podeis falar em alma, se não escrevo senão simples relatos do que observo dentro e fora de mim?

-Não tente enganar nem corromper mais a minha pessoa! Eu bem conheço a sua poesia, cada verso infame. E como conheço!

-Ahahah! – gargalhei, propositadamente. Ou será que não?… – O Riso é o caminho mais perto para o Sol. E como me ilumina você! Ah, que seria do ser humano sem o riso… que formigas obstinadas seríamos… Quantas desgraças não seriam ainda hoje choradas avidamente não houvesse um génio que as desfrutasse e ridicularizasse… Agradeço-lhe meu amigo por me fazer rir neste belo serão.

-Mas… O que… Não o compreendo! – disse num misto de surpresa e ultraje centrifugados.

-Ahá! Finalmente as gonorreias da verdade eruptam em glória! Como podereis entender o que escrevo senão entendeis o meu comentário?

Boris

(continua…)


Homem de preto na praia

Da beleza incongruente de uma tarde de Outono, surge, sem meias nem inteiras medidas, uma melancólica névoa, melancólica paisagem. A pena saltara, já com tinta, para cima da folha, semi-queimada (da sua companhia com velas desajeitadas), tal urso esfomeado. Começou assim o seu espaço temporal, que muitos consideram dado o seu inicio pela união vertical superior de dois malfeitores giratórios, mas que na sua verdade (tão pessoal como o sentimento ela é) constituía apenas aquele pressentimento de vida, como se o mundo acordasse de repente, aquele peculiar e perspicaz sibilar de uma locomotiva a dar a inicio ao seu combate perpétuo. Começou assim, e passo a citar, desta maneira:

Inda fechadas estão
As janelas. Já é dia.
Meio-dia. A escuridão
Tem sombras de claridade
De janela em cada vão.

fazendo passo tanto literalmente, como figurativamente à minha levemente traçada frase. Parou. Indagou-se: Onde vão as minhas janelas? Quem são elas?; São, hoje, quadros pintados com a delicada mão divina e a loucura do Homem. Retratos simbólicos da vista metafórica deste aposento, transformados em leves traços, serenas manchas de tinta. Apenas esta ilusão do “alheio” lhe trazia a sensação de cor. ‘Sou um homem a preto e branco’, sussurrou às paredes surdas. Estas, roucas, responderam com um ruído fugaz, acutilante; o ruído do nublado, sendo elas opacas, e, ao mesmo tempo, transparentes, pois nem estas paredes paredes o são; não há matéria, ‘o tijolo ou lá que merda é…’, pensou, num rasgo de realidade. São, pois, uma fronteira, um risco geográfico psicológico. Nem mobília tem, este malfadado quarto; só a escrivaninha onde escrevia, onde os papelinhos, riscados, se erguiam e entoavam juntos, cantos de loucura e esta ditava o centro deste infinito. Por vezes, em impulsos fantásticos tentava alcançar as tais paredes, sendo tão bem sucedido quanto um suicida e uma faca de teatro, acabando sempre por descobrir o quão inalcançável é a razão.

Tudo o que avistava, quando ausente das janelas ou das portas, dos buracos no tecto e no chão, era apenas um longínquo horizonte, onde naus naufragavam e Camões salvava o hino deste povo que nem hino tem, onde a brisa corria, fazendo da maratona um reles passeio.

‘Mas, então, como chegarei eu a algum lugar, sem abandonar esta divisão?’

A resposta, meu amigo de óculos redondos, está mesmo à tua frente (não querendo com isto ironizar um cliché, nem tornar a ironia nele próprio).

‘Como a acharei eu, se “minha frente” é o infinito, o cosmos, e, podendo ela estar no fim, tudo isto ser um paradoxo imoral, visto que esta besta que nos criou, deixou-nos, a nós, infelizes e estúpidos loucomotivos, o propósito de abarcarmos e darmos progresso à sua própria criação, sendo que, pior do que não existir sentido em tal suposição existencial, a impossibilidade de não sabermos se este existe ou não. Ou mesmo estando no seu ínfimo inicio e não eu a poder avistar nem armado em microscópio, numa analise à mais atómica parte de cada parte do meu ser?’

A reposta, meu grande apreciador de gabardines, é ainda mais simples… porque o que se encontra “à tua frente” é, realmente, “o que está”, não “à tua frente”, mas à tua volta; como a expedição de Fernão Andorinha Magalhães, na sua rota de migração, tendo como demanda descortinar aquilo que estava naquele “lá” nunca visto, acabou por chegar a este “cá”, de onde havia partido….

‘Quereis dizer com isso, minhas espirituosas amigas, que o infinito é apenas um circulo, um ponto passageiro que passa sempre no mesmo sítio e não uma linha contínua que tudo o que existe compreende? Que o universo não é tudo aquilo que me rodeia, mas apenas o sitio onde me encontro? Porque me condenais paredes, a esta perpétua esfera?’

A inanimação destes indivíduos supostamente cal deu novamente sinais de vida. O silêncio. O monstruoso silêncio que tanto o abalava e espezinhava e o oprimia. Nem a boca mexia, nem os olhos piscavam, receando perturbá-lo… Até o seu pensamento era por vezes enormemente vazio…

E, ao reflectir (armado em espelho) sobre essa imensidão de nada, lhe surgiu aquilo que nunca tinha encontrado:

O passo pára ao entrar
Nesta estranha soledade,
Tão perto e longe do dia.
De silêncio, não de frio,
A vaga sala está fria.

A sua vida, ao entrar em seu lar, não era vida de quem morre com faca e garfo. Estranha vida;

Há um vazio no ar
Cuja tristeza apavora;
E sem ver, ouvir, lembrar,
O pronto coração sente
Que no silêncio alguém chora
Lágrimas vãs a rolar
Dormente, caladamente
Tristemente, devagar.

As lágrimas, essas, que vão e vêm num constante passar.

‘Ora aí está o meu infinito!’

Observou o chão com distância supérflua, mas familiar; amarelo acinzentado, formando pequenos grãos insignificantes dispostos segundo a táctica “aqui vou eu!” – a areia, que neste caso é Areia.

Quem é este homenzinho? Quem és ó Fernandinho?!

Apenas isto…

De cadeira e escrivaninha no areal com uma pena e uma folha somente. Olhando o mar com indiferença, como se do seu quarto se tratasse…

Boris

Post-Scriptum:

O poema acima revelado em maravilhosos caracteres descritos como o idioma que deu origem ao Latim, não surgiu dos meus rabiscos, nem muito menos do juízo que me pertence, mas sim do de um outro sujeito. Português. Poeta. “Abandonada”.


Nova velha casa

Já é tarde, o sol derrete inconformadamente, reflectindo nalgumas nuvens a sua pureza, lixívia-brilhante.

Com um tempo tão bom, apetecia-me ficar em casa, a olhá-los de longe, menosprezando-os, mentindo-lhes, protegido pela minha janela; que bela invenção! Ah ah, aqui não me apanhas!, mas, inconformado como a nossa estrela, acabei por sair…

Talvez não seja assim tão tarde, senão já aqueles rouxinóis se tinham calado e… Não me perguntem mais as horas! Estou farto disto! Matei o meu relógio! Não tenho cigarros! Mas tenho lume, minha senhora, se precisar… Ando sempre prevenido para as mais diversas ocasiões; quem sabe se não tenho a necessidade de levar “emprestada” uma garrafa de vinho ao merceeiro? Ou de curar a esquizofrenia?, onde iria eu arranjar um saca-rolhas ou um super  ego enquanto corria?

Finalmente chega o comboio. Partilho da sua despreocupação e solenidade, também eu cheguei e já tinha partido a tal locomotiva que me deveria estar a transportar. Afinal, nunca nos apressamos quando se trata de chegar atrasado, ouvi alguém dizer… As portas abrem vio(lentamente); entro maquinalmente, fruto de um hábito inútil.

Ah…

Mas espera; rouxinóis?!

Onde andarão eles? Será que vivem nestes prédios enormes? Será que agora fazem ninhos no cimento? Ora essa! O cimento é nosso! Querem construir casas, façam-no, mas não nos roubem ideias! Ah, malditos rouxinóis. Aposto que vivem conspirando com a ambição de nos controlar… Mas não, nunca serei submisso de um desprezível pássaro!…

Este comboio também não é o tipo mais agradável; não consigo pensar como deve ser com esta guinchadeira; estes barulhos dão-me sempre… hãn?… não sei… talvez… sono… por isso… acabo… entre… e…

(Estado mental irregular, incompleto. Fundo branco, pano-horizonte, sem cor abstracta. Sem chão nem tecto, 6ª dimensão é a minha esfera. Sozinho neste não-mundo infinito. Alguém chega, passa, perto. Olha-me de lado. Apenas captei a presença dos seus olhos, desconfiados e ausentes, a gabardina e o cachimbo-vulcão, cospe fogo, labaredas arco-íris que me atingem o sistema nervoso; intravenoso sujeito que se interpôs no meu nevoeiro. Eis que surge outro, vindo do nada, nada esse que ainda há pouco tudo era):

-O seu bilhete?

Bilhete?!

Oiço as portas a abrirem com uma rapidez suave. Corro – fora deste pedaço de alumínio!; para o meio dos prédios. Para… esta coisa… que é isto? Dou de caras com uma nova raça de edifícios e seres suburbanos. Examino-os; cor pálida destroçada, cinzenta, quase ausente, desvanecendo de alto a baixo. Vidros partidos, alguns literalmente, outros, partidos de vida e brilho. Alguns veículos amachucados pela sucata forasteira, abandonados ao sabor do quotidiano, viajando infinitamente no mesmo ponto. O alcatrão velho, que até o seu preto perdeu a escuridão. A calçada desfeita em pedras mortas. E o vazio; na rua passam pessoas que nem pessoas são. Seres de incontável obediência à soberana rotina, escravos do seu meio de obstinada repetição, caminhando em linha recta.

Que é isto?

Evito perguntar onde estou. Provavelmente não iria compreender ninguém aqui. Onde estão os rouxinóis? Agora já os entendo… Sinto falta da ausência de atenção, pois nem este desprezo é humano, desprezo plástico. Caminham todos com a vida numa pasta e a alma numa algibeira. Qual será? Que suja gabardina me dirá onde estou? Em que algibeira enfiar a mão e descobrir e sentido, a direcção, desta cidade? Não me olhem assim! Sou estrangeiro aqui, mas apenas quero saber para onde vos levam… E não me façam perguntas difíceis; quem sou eu?, de onde venho?, o que faço?… Não consigo responder a trivialidades sem entrar num total estado psicadélico. Que se fodam trivialidades! O belo, o antigo, o orgulho e as metáforas. São a minha fonte de vida. Mas, onde estão as metáforas aqui? Para onde foram os rouxinóis? E, só ao procurá-los, reparo naquele vidro, intacto e brilhante. Áurea agreste a todos estes tristes caminhantes; celeste à minha visão. Uma gota de paraíso pairando na torneira, sem cair nunca, sem evaporar, esperando uma boca sedenta. E lá vejo dois olhos. Agora realizo que esta cidade, estas ruas, que tanta vez me viram passar, esta natureza morta, que todos os dias, impreterivelmente passou diante da minha visão era a cidade escura, que sempre tratei por tu, sem nunca a conhecer. A cidade onde fui mesmo sem ser. Onde vivi sem me dar conta.

E lá vejo dois olhos. Dois olhos que tão bem conheço do meu espelho.

Boris


Desculpe, conhece este homem? (pt. 2)

Rápida e cuidadosamente pega no tapete com receio de que a excitante marca de sangue seja desfeita pela chuva, malvada empregada de limpeza e o leva para o escritório, seu laboratório de perversidades. Eram 2 da manhã e, por essa hora, estaria já ele deitado, a conformadamente sonhar, provavelmente, com uma morte em directo, mas milagrosamente ganha colossal energia, como se tivesse acordado de uma longa soneca numa tarde de Verão. Com uma delicadeza tal, pousa o tapete velho e feio numa mesa limpa e aponta-lhe um candeeiro. Estava encharcado; tinha chovido durante quase toda a noite, mas o sangue era de um vermelho vivo, ainda borbulhava, não se deixando dominar pela massiva água como se deixaram dominar pequenos povos, face ao grande Império. Queria isto dizer que este tapete tinha sido testemunha comprovada de um delicioso acontecimento não há muito tempo. “No máximo há uns 30 minutos…”, pensou.

Já tinha algumas vezes visto os detectives a examinarem cenas de crime, sorrateiramente a um canto, passando por uma normal pessoa com aquela fútil curiosidade e tentou lembrar-se de como descodificavam eles aquilo que os seus olhos não reflectiram em código para os seus cérebros. Recordou-se, ao olhar com mais atenção para o tapete, que uma mancha de sangue significava que a dita malfeitoria havia sido cometida mesmo por cima do tapete, mas a mancha observada era composta por muitas pequenas gotas longitudinalmente espalhadas, que, misturando-se ligeiramente, davam a ilusão de comporem uma poça. Já tinha mais uma pista (a adrenalina penetrava agora numa injecção maníaca); a cena não se dera à porta de sua casa. Provavelmente a meio da rua. Continuou ainda um par de horas de volta do tapete, como um cão e um osso, mas nada conseguiu descobrir. Talvez a excitação fosse imoderada… Deixou-se dormir.

No dia que se seguiu, pensou, sem mais medidas, em não ir trabalhar durante os próximos tempos; nunca tinha tido dias de descanso e agora tinha conseguido um forte motivo para o fazer. Vestiu rapidamente as roupas, mesmas do dia anterior, tal era a obstinação e saiu de casa. Não tinha nem uma pequena ideia da manha que iria fazer, por isso ficou parado à porta, esperando pacientemente, como uma raposa aguarda a saída de um coelho da sua toca. Quando já estava decidido a ir para a taberna comer alguma confecção gordurosa com a qual se identificasse, saciar a sua segunda fome, ouvem-se, na habitação ao lado, audíveis mexericos de chá que se tornaram bruscamente num combate de artilharia:
- Sua cabra! Puta sem vergonha! Saia de minha casa e não volte a proferir o meu nome nem o de meu marido!
- Só vim avisá-la de que é esposa de um homem perigoso. Só pode ser ele. Mais ninguém usa aquela capa! – disse a mulherzinha, enquanto era arremessada porta fora.
“Eu também tenho uma capa… não será isso assim tão suspeito” pensou, espantado. Esquecendo-se do que ia fazer, dirigiu-se à senhora, ainda a ajeitar a saia e o cabelo:
- Que se passou minha senhora?
- Muito obrigado pela ajuda, infame cavalheiro!
- Ah, desculpe-me! Penso que me esqueci dos modos em casa… – ripostou natural, delicadamente, sem a mais pequena ironia ou sarcasmo.
- Hmm… – a senhora, desconfiada de tal homem-pequeno-incomum, pensou em fugir, “Sabe-se lá o que estas gentes fazem…”, mas o espontâneo interesse do homem fê-la esquecer esse pensamento – Deixe lá! Mas nem queira acreditar no que aconteceu! O esposo dessa ingrata, o Mr. Jack, sabe?
- Vagamente – respondeu. Nenhum interesse tinha em estabelecer contactos, nem mesmo visuais, com tais vizinhos.
- Ia anteontem a passar na zona do mercado, já à noite, apesar de saber muito bem que não o devia ter feito; não são locais seguros para se passar à noite, muito menos para uma senhora, e pude observar por poucos segundos um homem baixo, de capa a esventrar um pobre vagabundo, sem aparente razão…
(Nos seus lábios formou-se uma semi-circunferência invertida, também conhecida como sorriso, ao ouvir a conjugação das suas preferidas expressões).
- Oh, meu deus! Ah, santa! – repentinamente assustada de tal maneira, como se aquilo que acabara de contar não estivesse relacionado com aquele aparato. Fosse uma história passada à 30 anos, já desvanecida pelo tempo – Ai!, ainda sinto o coração a bater de tal acontecimento, foi horrível! Ah, meu deus! Desculpe-me, mas vou ter que me ir embora.
E saiu a correr, fosse o homem que ela via à frente aquele que tinha visto nesse dia, deixando-o especado. Mas feliz.

Nunca um dia lhe tinha começado tão bem…

(Continua…)

Boris


Sonho de Viver

Quem diria?!, que depois de tantos anos estaria eu aqui, neste estado, sem roupa decente, sem economias… Olho para trás e sei que estou no sítio certo. Certo não será bem o termo, mas a verdade é que não podemos escapar à nossa condição natural. O impulso é mais sábio que a reflexão… e digo isto sendo, eu, um pobre filósofo; por mais maquinais ou electrónicos sejamos, a nossa harmonia passional torna-se sempre um vírus benigno, sabotando o nosso processamento de dados. Digamos agora que sou mais orgânico, tornei-me numa besta agrícola. E ao pensar nisso, recordo, sem relevante nostalgia a minha antiga vida, condição social que antigamente me definia e me permitia, sem exagero, numerosos contactos, sendo eles simplesmente económicos, sociais ou somente carnais, aliás, naturais, aos quais ainda hoje sucumbo, mesmo que temendo a sua conclusão, infeliz não-perpétua-satisfação. Sucesso era o meu segundo nome. Aliás, era inclusive o primeiro pois não possuía a essência nominal que hoje encontrei. E até me sentia divinamente bem.

Sou agora outro ser. Paradoxalmente humano; mais Homem, menos pessoa. Múltiplas personas; não sei quem sou quando acordo e vagamente sei quem era quando adormeci. Mas vivo!

-É óbvio que vives! Vai mas é afinar a tua guitarra. Despacha-te! Diz-me com carinhosa autoridade. Nem sabia ela que eu hoje era Sócrates, ditando frases sábias às pedras na rua, às poças e às folhas ou a um ouvido interessado, com desejo de conhecer o mundo na sua cabeça. Mas apenas ela me ouvia com real inspiração, apenas ela sabia que nas palavras de um extravagante divagador residia a verdadeira flecha, trespassante de vinhos e cervejas em distante terra, que acerta no peito dos indígenas de fato e gravata… “Mas o que é a sabedoria senão o óbvio?”, pergunto-lhe. Claro que era retórica e ela percebeu. Descubro agora que tudo o que tenho, orgulhosamente, desvendado sobre a eclética maneira de ser ‘Eu’, não passa de uma simples evidência infinitamente camuflada a quem teme vê-la. Mas nós dois vivemos. Vivemos a nossa existência; temos um caminho. Poucos têm o prazer de o gritar (com tamanho cataclismo nas cordas vocais) sem imediatamente se desvanecerem de tal afirmação, questionando-se, com ironia, se alguma vez viveram ou se realmente vieram com defeito de fabrico.

Pego então na minha guitarra, belo pedaço de madeira, magnifico ser de elevada sapiência, que detém todo o conhecimento em frágeis cordas. Começo a estrangulá-la, esticando as suas veias ao longo do pescoço, hábito pouco habitual, pois sou uma pessoa dissonante, para dar inicio à minha antologia de histórias; trovador trovante, narrador de trovoadas, entretendo o povo, fazendo de uma estranha futilidade um negócio.

E quando o herói morre no final (tristes caminhos leva a minha história, sempre com uma miserável e infeliz personagem, retratando com exactidão a Vida) e eu, humilde orador me calo, a minha doce condiscípula surge, pois surgir implica não apenas aparecer, mas “ser”, quando as ruas estão vazias e tão cheias, escuras mas tão iluminadas, no silêncio da sua canção, dando voz à sua voz, enamora toda a fauna invisível da nossa Utopia, num turbilhão de inocente sensualidade. É neste momento que vivemos realmente e toda a falta de lógica faz sentido, como um pensamento irracional. A selva urbana é apenas uma eloquente melodia e viajo no tempo descendo, alucinante, as décadas de humanização. Os prédios caem, as ruas evaporam, a multidão comprime-se numa singela implosão… Já nada existe senão um rio de vida.

Paro nesta viagem. Levanto-me e continuo a caminhar. Dito mais um pensamento a esta ingénua criatura: “Omnia Sol temperat purus et subtilis. Novo mundo reserat!”. Porquê o Latim?!, não era Sócrates grego? Decerto nem saberia ele que quinze séculos depois se escreveriam estas sábias palavras. Em poderosa papelada encontrei uma razão para ser quem não fui, para realmente engrenar esta sede de viver. O Sol tudo aquece, puro e subtil, revelando-se de novo, ao mundo. Certamente não soube o que aquelas palavras significariam, mas em pura e subtil interiorização, revelou, ironicamente, a essência da minha reflexão. O sentimento, a imaculabilidade destas voadoras palavras, pairando, flutuando majestosamente na neblina do quotidiano, descem suavemente, num semblante harmónico para se preservarem no nosso lar; sejam bem-vindas!

E a música que feliz, saciada sai destas cordas, desta garganta, rouca e rugosa, desta consciência obstinada e imutável, viaja pelos ouvidos de muitos, percorrendo o ar, os pulmões, entrando sorrateiramente na corrente sanguínea, pululando entre fugazes organismos e se torna companheira subliminal destas ruas tristes. Pela noite dentro, pela estrada fora, caminho por caminhos desfeitos e ela, a meu lado. Sem palavras conversamos sobre o vazio. Preenchemo-nos com notas, pequenas vibrações pulsantes, somos o sol que reaparece ao nascer de um novo dia; conhecemo-nos novamente, cada vez que os nossos olhares se cruzam…

Boris


Desculpe, conhece este homem?

Casaco velho, escuro, com borboto. Calças desleixadas. Chapéu de coco. E os sapatos, seus velhos companheiros de rua. Uma imagem ligeiramente suspeita. Mesmo até para quem é dono aquela cara; rechonchuda com óculos redondos, os traços cobertos pelo encolhimento gorduroso das maças do rosto, como que sempre fechado na sua aparência, sem prestar atenção ao mundo, sem reparar nas espectaculares trivialidades que lhe passam a mais de 10 centímetros do seu nariz, que diria a propósito, também, ser algo esférico.

Na rua, as poças reflectem a escuridão e surgem sorrateiramente, multiplicando-se até formarem uma vasta gama oceânica, provocam uma silenciosa tempestade na estrada e no passeio. As casas. Os afamados dois andares do séc. XIX; portas, janelas, portadas trancadas, tudo fechado, em sinal de um protesto mudo à vida aberta daquelas criaturas da noite.

O bar acabara de fechar. Mais uma vez a noite fora finalizada com a tão esperada e habitual porrada, na qual os homens-nada, seminus na sua sensatez, (des)carregam a sua mágoa, pois o álcool cai facilmente no sangue, mas o sangue não cai no copo. Mas ele não. Sempre fora muito isolado, nem uma briga, por mais que afiada, quebraria o bloco de gelo, essa compressão de acções e pensamentos que ele considerava ser a sua vida. Observava a cena com sereno entusiasmo e, ao mesmo tempo, repulsão. Não ideologicamente, ou que fosse moralista, mas toda aquela escaramuça era, no seu ponto de vista, tecnicamente muito tosca. Mas a perversidade fazia-lhe saltar os olhos. Até o mais pequeno fragmento de malvadez ou repugnância o fazia vibrar. Claro que mantinha a sua compostura, afinal era um homem de respeito e honrado. Oh, mas como adorava ele observar detalhadamente (como um cientista analisa ao pormenor o conteúdo de um microscópio) um soco ou uma garrafa partida na cabeça de quem passa apenas para sair… Uma forte e rápida injecção de adrenalina, uma enorme pedra fumegante no seu peito evaporando até à cabeça, num tornado de emoção…

E todos os dias ele lia o jornal, sempre nas mesmas secções: crimes e homicídios. Os assassinos em série, particularmente, fascinavam-no. Todos os métodos, técnicas, manhas, até todo o tipo de utensílios usados pelos algozes, profissão concorrida naqueles tempos (um bom homicídio era como um bom jantar, um prato cuidadosamente cozinhado por outra pessoa com tal requinte e sabor para ele se saborear). Conhecia-os tal como dominava a sua profissão. Até se considerava um bom cirurgião; já tinha, por certa vez, operado um dos tipos mais respeitados da cidade: Patrick Stephenson, famoso comerciante de café.

E sempre que pegava no bisturi ou numa espátula, subia-lhe à cabeça uma vontade alpinista de se deixar levar pelo impulso perverso; a curta distância de uma operação perversa deixava-o em êxtase. Mas resistia sempre, era um homem de pouca coragem e espírito fraco. Ele próprio se considerava um maricas. Sentia-se frustrado e a angústia crescia cada vez que se encontrava sozinho, em sua casa. Apenas ele e um corpo, aberto, indefeso, imóvel, incapaz, mas seria ele ainda, o mais fraco.

Caminhava até à sua habitação, não muito longe do bar, mas o suficiente para se ter encharcado por completo, implacáveis poças. Parou à sua porta e retirou os sapatos e as meias; era um tipo muito limpo e cuidado, talvez até demais, embora à vista a maioria tenha tendência para adjectivá-lo de javardo, ou labrego, provavelmente devido às suas feições escabrosas. No momento em que se baixa para apanhar o dito calçado, repara numa mancha no tapete de entrada. “Não estava isto sujo quando saí!”, pensou. Para além disso vivia sozinho. Ficou intrigado. Entra em casa e acende a luz. Olha de novo para o tapete; Sangue… Já não ia dormir essa noite…

(Continua…)

Boris


Até que o horizonte nos separe

Dou um passo à frente, no último degrau da minha velha amiga escadaria, saio de casa. Sair de, implica por si só um processo mecanizado, mas este digno acontecimento (se é que lhe poderemos dar tal definição) de certo que possui uma genuína essência; sair de, tal como uma fronteira, existe apenas hipoteticamente, nunca poderemos pisá-la, apenas os dois espaços que ela separa. Querendo com esta divagação afirmar aos entendidos que, cada vez que saio de casa, sou engolido para um mundo totalmente desconhecido. Não diria totalmente, pois sempre tenho alguma deturpada noção oferecida pela simpática janela do meu quarto bafiento.

Como está o dia? Bem obrigado; uma nuvem lá no fundo, vai chover. Estúpida gabardine, estúpido chapéu de feltro, nem umas leves gotinhas carregam por mim. Hei-de livrar-me de vocês! Subitamente… corro. Não sou do tipo impulsivo, mas ao tirar os olhos da meteorologia, o mundo daquela terça-feira tinha o seu toque kaputt, que mais poderia fazer, eu, apaixonado do antigo e do arruinado… Quero ir até à sua fonte!

Ah ah, brilhante coincidência, arremessei prontamente as minhas referidas vestes com uma pujança e uma satisfação enormes. Ia justamente observando o seu belo voo e pisando (alterando em pequenos saltos entre o pé esquerdo e o direito) a calçada, tão saciada estaria ela dos meus sapatos ignóbeis, quando oiço um barulho adulterado, polifónico, pequeno sinal do nosso fútil (inútil?) progresso… O meu telemóvel!…

-Porra, esqueci-me! Gritei. De certo ninguém ouviu, tal hipérbole foi este meu grito. Espero que estes gajos ainda não tenham inventado o primoroso controlo da minha cabeça. Mas… surpreendentemente não parei (a minha possessiva consciência, todo o meu corpo sucumbe à sua necessidade de energia), tal seria a força de vontade das minhas pernas. Mas quem precisa de um pequeno brinquedo de plástico (necessidade talvez seja uma ilusória definição da sua função ideológica), de responder a vozes estranhas, de esmurrar incessantemente pequenos botões indefesos? Afinal, estava a correr, dei uma arrancada, fugi, saí em disparada, fluí, voei. Fantastique, n’est-ce pas? Maravilha, digo eu. Esta pequena interrupção fez-me parar (não fisicamente, claro) e olhar à volta. Só agora reparo, apesar das múltiplas queixas de desconfiança por parte das minhas pernas rotinadas, que o meu trajecto não é o habitual.

Para onde me dirijo?

Não há movimento, percorro uma fotografia, um quadro, pintado de leve, numa abstracção das invenções e descobertas; a natureza? Será isto aquilo a que chamam natureza?, a nossa atenciosa, mas ausente mãe, segregada do nosso berço, finalmente te encontro! Mas…

Para onde me levam, membros de locomoção autómatos?!… Silêncio – já tenho a minha resposta.

A descoberta do caminho para a paisagem. Ah, mas doce, a ilusão, o desconhecido, tal Colombo nas Índias Ocidentais (ou talvez, acidentais…). É este o novo mundo que procurava sem saber, subconsciente desejo; as casas de estranhos, uma floresta aqui, um jardim ali, as estradas, as ruas, os caminhos, o mato; o empedrado, as tascas, o dominó, Santa Terrinha!

O meu destino?, pela primeira vez na vida não o sei, e é precisamente essa a razão por que vamos continuar, eu e as minhas pernas. Em frente. Até que o horizonte nos separe.


Boris


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