Da beleza incongruente de uma tarde de Outono, surge, sem meias nem inteiras medidas, uma melancólica névoa, melancólica paisagem. A pena saltara, já com tinta, para cima da folha, semi-queimada (da sua companhia com velas desajeitadas), tal urso esfomeado. Começou assim o seu espaço temporal, que muitos consideram dado o seu inicio pela união vertical superior de dois malfeitores giratórios, mas que na sua verdade (tão pessoal como o sentimento ela é) constituía apenas aquele pressentimento de vida, como se o mundo acordasse de repente, aquele peculiar e perspicaz sibilar de uma locomotiva a dar a inicio ao seu combate perpétuo. Começou assim, e passo a citar, desta maneira:
Inda fechadas estão
As janelas. Já é dia.
Meio-dia. A escuridão
Tem sombras de claridade
De janela em cada vão.
fazendo passo tanto literalmente, como figurativamente à minha levemente traçada frase. Parou. Indagou-se: Onde vão as minhas janelas? Quem são elas?; São, hoje, quadros pintados com a delicada mão divina e a loucura do Homem. Retratos simbólicos da vista metafórica deste aposento, transformados em leves traços, serenas manchas de tinta. Apenas esta ilusão do “alheio” lhe trazia a sensação de cor. ‘Sou um homem a preto e branco’, sussurrou às paredes surdas. Estas, roucas, responderam com um ruído fugaz, acutilante; o ruído do nublado, sendo elas opacas, e, ao mesmo tempo, transparentes, pois nem estas paredes paredes o são; não há matéria, ‘o tijolo ou lá que merda é…’, pensou, num rasgo de realidade. São, pois, uma fronteira, um risco geográfico psicológico. Nem mobília tem, este malfadado quarto; só a escrivaninha onde escrevia, onde os papelinhos, riscados, se erguiam e entoavam juntos, cantos de loucura e esta ditava o centro deste infinito. Por vezes, em impulsos fantásticos tentava alcançar as tais paredes, sendo tão bem sucedido quanto um suicida e uma faca de teatro, acabando sempre por descobrir o quão inalcançável é a razão.
Tudo o que avistava, quando ausente das janelas ou das portas, dos buracos no tecto e no chão, era apenas um longínquo horizonte, onde naus naufragavam e Camões salvava o hino deste povo que nem hino tem, onde a brisa corria, fazendo da maratona um reles passeio.
‘Mas, então, como chegarei eu a algum lugar, sem abandonar esta divisão?’
A resposta, meu amigo de óculos redondos, está mesmo à tua frente (não querendo com isto ironizar um cliché, nem tornar a ironia nele próprio).
‘Como a acharei eu, se “minha frente” é o infinito, o cosmos, e, podendo ela estar no fim, tudo isto ser um paradoxo imoral, visto que esta besta que nos criou, deixou-nos, a nós, infelizes e estúpidos loucomotivos, o propósito de abarcarmos e darmos progresso à sua própria criação, sendo que, pior do que não existir sentido em tal suposição existencial, a impossibilidade de não sabermos se este existe ou não. Ou mesmo estando no seu ínfimo inicio e não eu a poder avistar nem armado em microscópio, numa analise à mais atómica parte de cada parte do meu ser?’
A reposta, meu grande apreciador de gabardines, é ainda mais simples… porque o que se encontra “à tua frente” é, realmente, “o que está”, não “à tua frente”, mas à tua volta; como a expedição de Fernão Andorinha Magalhães, na sua rota de migração, tendo como demanda descortinar aquilo que estava naquele “lá” nunca visto, acabou por chegar a este “cá”, de onde havia partido….
‘Quereis dizer com isso, minhas espirituosas amigas, que o infinito é apenas um circulo, um ponto passageiro que passa sempre no mesmo sítio e não uma linha contínua que tudo o que existe compreende? Que o universo não é tudo aquilo que me rodeia, mas apenas o sitio onde me encontro? Porque me condenais paredes, a esta perpétua esfera?’
A inanimação destes indivíduos supostamente cal deu novamente sinais de vida. O silêncio. O monstruoso silêncio que tanto o abalava e espezinhava e o oprimia. Nem a boca mexia, nem os olhos piscavam, receando perturbá-lo… Até o seu pensamento era por vezes enormemente vazio…
E, ao reflectir (armado em espelho) sobre essa imensidão de nada, lhe surgiu aquilo que nunca tinha encontrado:
O passo pára ao entrar
Nesta estranha soledade,
Tão perto e longe do dia.
De silêncio, não de frio,
A vaga sala está fria.
A sua vida, ao entrar em seu lar, não era vida de quem morre com faca e garfo. Estranha vida;
Há um vazio no ar
Cuja tristeza apavora;
E sem ver, ouvir, lembrar,
O pronto coração sente
Que no silêncio alguém chora
Lágrimas vãs a rolar
Dormente, caladamente
Tristemente, devagar.
As lágrimas, essas, que vão e vêm num constante passar.
‘Ora aí está o meu infinito!’
Observou o chão com distância supérflua, mas familiar; amarelo acinzentado, formando pequenos grãos insignificantes dispostos segundo a táctica “aqui vou eu!” – a areia, que neste caso é Areia.
Quem é este homenzinho? Quem és ó Fernandinho?!
Apenas isto…
De cadeira e escrivaninha no areal com uma pena e uma folha somente. Olhando o mar com indiferença, como se do seu quarto se tratasse…
Boris
Post-Scriptum:
O poema acima revelado em maravilhosos caracteres descritos como o idioma que deu origem ao Latim, não surgiu dos meus rabiscos, nem muito menos do juízo que me pertence, mas sim do de um outro sujeito. Português. Poeta. “Abandonada”.