Arquivos Mensais: Fevereiro 2011

Amo-te à força

- Não percebo como se pode deixar levar por isto…, Dona Madalena, ele não a ama!

- Mas como pode sequer afirmar isso? Alexandre não o conhece.

- Olhe que não… quiçá nem o conheça a menina tão bem quanto eu! Pois, talvez não o saiba, mas eu frequentei a preparatória e a escola industrial com ele! Conheço-o como ninguém.

- Se o conhece da forma que diz, que amigo se julga você, desacreditando perante mim (sua noiva) os seus sentimentos?…

- Eu nunca lhe disse que éramos amigos… Chegámos, de facto, a ser amigos durante a infância; porém, foram a sua falsidade e cinismo que nos afastaram – aos poucos – a partir dos 15 anos…

- Parece-lhe então correcto traí-lo também?

- Dona Madalena, não posso considerar a verdade uma traição, pois, a ele, já não lhe devo qualquer lealdade; e a si, pretendo ser acima de tudo verdadeiro e leal – a tal a minha honestidade obriga, e de forma alguma a corromperia. E, para além da minha honestidade há, como de certeza já reparou, algo mais que sinto por si…

(E é interrompido pela sagacidade de Madalena)

- Desculpe Alexandre, mas ainda que Daniel não me ame a mim – como você diz -, eu amo-o a ele, incondicionalmente, e lamento não corresponder à sua enorme honestidade e bondade.

- Creio que D. Madalena se esqueceu, porém, de um pormenor: pois, seu pai, Sr. António Rebelo Pereira, à muito me incentiva a pedir-lhe a mão de sua filha, instigando que eu possuo as qualidades  que, segundo ele, são as ideais para o seu futuro genro. Não vejo por isso forma de a menina se casar com mais quem quer que seja… e, lamentavelmente ou não, terá de se casar comigo!

(À medida que o discurso de Alexandre ia progredindo, ia, paralelamente com ele, progredindo o pranto de Madalena que, já lavada em lágrimas, grita em desespero…)

- Fugirei com Daniel para Toulouse! onde os tios dele vivem.

- Com o dinheiro de quem?…

(Madalena afoga-se nas suas silenciosas lágrimas, e mergulha na cama, escondendo a face brilhante e lavada por entre os pesados cobertores. Crava os pequenos dentes numa pequena almofada de feijões, com ódio deixando gravadas as marcas do seu amor)


Zen


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