Café com Notas/Natas

Tomo o café e, a ninguém interessa saber onde, como, quando e com quem; pois tudo o que falo é de nuvens, de como as vejo azuis no céu brilhante, escutando atentamente o “Chamelion” do Hancock.
                   Nas nuvens vejo pessoas, formas, a minha primeira namorada, os meus grandes amigos, a minha família. Tudo aquilo que deixei para trás, porquê? Que faço neste raio de pedaço de Terra? No fim das linhas tortas onde Deus se negou a escrever o que quer que seja… Terei eu errado simplesmente no meu percurso de vida?

Compreendo-o hoje escutando Horowitz e mais uma dessas baladas de Chopin, a ética é algo intransmissível; toda essa herança de família passada nos meus olhares, sorrisos, escarros (estranhamente transmissíveis e populares, estes últimos…) – não possui ética alguma…

Peço a conta abstraído do desprezo com que o faço e, o simpático empregado – atencioso como de todas as vezes em que não vim a este café – a traz. As nuvens continuam lá fora, as pessoas chamam, choram, e chove a potes, que bom! Creio estar na altura de me constipar! – Penso. Saio para a rua com esse propósito em mente mas é de forma dramática que constato que, apenas se tratava da inquilina do andar de cima queixando-se energicamente da sua pobre habitação alagada; despejando assim o lixo misturado em lixívia licitamente borda-fora, como quem não quer a coisa.
                 Parece então que ninguém chora por mim, senão a varanda da senhora. Aliás, até o simpático empregado me pretende felicitar, correndo já atrás de mim de cutelo em punho, perguntando-me de forma bem mais atenciosa e cooperante que antes se pretendo ou não pagar.

-Caaalma, traz lá a conta, rapaz!

E, de novo a traz, amachucada e rabiscada;

-Como? Um dólar?! Deves ter-te enganado…, exijo a prova!

E nove escaramuças ele profana, assombrando-me a sua falta de pontaria, e, falhando várias tentativas de me acertar com o cutelo nas tripas. De forma alegre, e entusiasmado como estava com a brilhosa iniciativa do rapaz*, fiz das tripas coração e desferi-lhe na cara um ataque cardíaco; algo vindo do coração com todo o carinho e afectividade possíveis, no intuito de motivar a responder solidamente com argumentos válidos, algo que não consegui… Mais lixívia choveu nesse dia, mas desta vez da boca dos agentes policiais eternamente decididos a perseguir-me – como o rato persegue o gato.

-Não me apanham! Não me apanham! – Ladrava eu, rua fora desmiolado, correndo mais rápido que os ratos…
 

*Espécie de referência a composição de Scriabin, “Vers la Flamme”, Op.72

Zen


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