Para Carlos Pereira
Na fachada leio – “Musió Nacional”. A arcaica fachada, feita inteiramente de pedra e tijolo faz-me pensar em todos os tijolos que ali estão; todos, e cada um. O importante papel que cada um daqueles tijolos teve ao suportar aquele centro, aquele lugar onde tudo e todos eles se juntam para me mostrarem segundos e milénios de História. E, é precisamente nestes momentos de reflexões inquietantes que eu penso: Que fiz eu? Terei eu ao longo de toda esta vida carregado, ao menos, um único destes tijolos? Terei fabricado, ou ajudado a fabricar um único que seja?; porque é que nunca havia sequer pensado em tais coisas…
Todas as fotografias são tiradas, os “Hola”, “Buenos días” e “Gracias” entregues, as lembranças e postais comprados, as malas feitas e “la despedida”…
De volta a Lisboa vejo o tempo passar. Quando parti, o Tejo parecia mais claro; o céu, as caras e os pombos, mais claros. Tudo me parece sujo e impróprio, e todos estes pensamentos se vêem ao espelho e nem um pingo de luz vêem em todo esse abundante suor “seco” que a minha testa chora e o chão consome. Faço caretas às pessoas que me rodeiam, procurando o mais habilmente extorquir-me tudo em tudo. Com os “Hola”, “Buenos días” e “Gracias” postos de parte, a minha linguagem ganha um pouco mais de dimensão, alargando-se a “Olá, tudo bem?”, “Bom dia” e “Obrigado”. Tudo isto pareceria um tanto sarcástico da minha parte mas, isto, apenas se não o fosse de facto. Pensando no meu lugar nesta “rua”, babo-me em ideias estapafúrdias enquanto oiço as notícias, e pergunto-me acerca do meu lugar neste mundo – Será tudo indumentária? E insignificante?…
Nas vagas reminiscências do antigamente algo me traz azia, dores de cabeça e depressão – creio que se não houvesse chão me afundaria p’ró rés-do-chão…, literalmente. A minha vida em abundância não me trouxe mais que, acerca dela, ignorância.
À parte disto, sinto-me mais preguiçoso que o habitual, sinto que cada pêlo no meu corpo está hirto e encravado, sentindo-me, talvez, como um porco espinho…, – para além de que dá comichão!, por vezes. De momento, não ando a ver mulher alguma, nem a trocar correspondência. Sentindo na pele uma áspera saudade do toque macio de dedos finos. Todo o calor se me desvanece em horas pouco vigorantes, passadas a ler e fumar cachimbo junto ao aquecedor. Ah! Sim…, devo também dizer-te que ultimamente ganhei, por gosto, o hábito de beber, após acordar, três copos de uísque, demonstrando certa preferência pelo irlandês. Com a guerra popularizada por toda essa Europa fora sinto que, cada vez mais, as paredes do meu quarto se tornam cinzentas; e o mesmo se sucede pelas calçadas fora… – Quiçá, manchadas por toda a pólvora queimada nos campos de batalha (donde oiço dizer que muitos morrem…), e que, subitamente, e, aparentemente, se tornaram no meu insólito mundinho de ridículas susceptibilidades emocionais.
Embora seja com extrema ansiedade que aguardarei essa tua resposta, não te apresses por razão alguma, pois sei que o teu trabalho não permite, por vezes, certas facilidades, exigindo bastante do teu corpo.
Beijos,
Do teu eterno amigo,
Rogério Azinheira
[14 de Outubro de 1943, Lisboa]
Zen