Montsant, 6 de Junho de 1953
Ao meu amável vizinho, Sr. Bixo
É incrível como a caneta dança! Ao escrever estas palavras que lê, vejo na tinta o rio Ebro a descer esses montes que vejo da janela do meu escritório, e se vai, ao ritmo destas mesmas palavras, formando, e molho ocasionalmente no tinteiro para lhe trazer leito. Poderá ser também uma libelinha, fazendo curvas e piques, voando indefinidamente sem direcção pelo meio das espigas. Sinto-me a própria folha de ulmeiro, vencida pelo Outono, desbravando as paisagens ao sabor do vento, rodopiando aleatoriamente em remoinhos e turbilhões, desfazendo-se misteriosamente em reticências…
Ah, sinto-me a própria natureza nestas divagações (como pode ver, hoje estou particularmente espirituoso). Espero que encontre um pedaço do seu tempo para as ler – escrevo-lhe a si pois a mais ninguém tenho que dirigir esta carta – a Nancy não sabe ler, o Ludovico ainda não voltou do seu negócio em Alcover e o amigo Rómulo… bem, não o iria aborrecer com escritas menores. Como sabe é um erudito (encontra-se neste momento a estudar um ensaio de um ucraniano manhoso, como ele teima em bradar). Espero, meu caro, que não a aborreçam a si! Sentir-me-ia mal comigo mesmo se assim o fosse. A verdade é que escrevi nestas últimas semanas umas quantas cartas de seguida. Comecei por escrever a um tipo em Castelló, de que ouvi falar que percebe bastante de vinhos e seria bom alguém com quem partilhar a minha bela actividade, mas ao que parece muda de casa de duas em duas semanas, pois arranja sempre problemas com a gente das tavernas. Ou seja escrevi uma série delas por dever e, dei, surpreendentemente, por mim a escrever a quem me lembrasse, assim em catadupa, é curioso… Pus assunto em dia com praticamente todos os meus saudosos conhecidos. Senti um súbito impulso. E já não me lembro de mais ninguém a quem escrever, sendo que ainda aguardo resposta da maior parte deles.
Ah, escrever. Não compreendo como poderá a escrita ser uma invenção do homem… É tão natural e instintiva que me sinto mais próximo da natureza, como se estivesse deitado num prado de palha ao sol, num êxtase de liberdade. É de meu ver que todos os animais e até inclusive as plantas escrevem, seja de que forma. É realmente um pensamento curioso, ora aqui estou eu armado em filósofo! São apenas divagares, nunca me tinham passado estas coisas pela cabeça.
Bem, já estou quase no final da folha e mais sítio não tenho onde escrever.
Um abraço,
(Hoje faz um dia particularmente fulvo, não acha?)
Dalí