Cartas de 1953 – 6 de Junho (2)

Montsant, 6 de Junho de 1953

Ao Sr. Bixo

Vejo que finalmente o convenci a escrever-me. Não sei porque teimou tanto – creio que esse é um dos pontos fulcrais da sua carta. Apreciei deveras a sua escrita, mas é de meu ver que se encontra enormemente condicionada pela sua teimosia. Até parece que foi obrigado a escrevê-la, é o que denoto… e isso leva à perda da espontaneidade necessária em qualquer rabisco. Quanto ao seu perfeitamente refutável argumento de que, e passo a citar, “trocar correspondência com uma pessoa que vive a menos de 50 metros é idiota e não faz qualquer sentido, se nos vemos praticamente todos os dias”, tive a amabilidade de elaborar uma lista de vantagens de escrever a quem resida no mesmo espaço geográfico:

  • Não se gasta dinheiro em selos;
  • “     “       “              “        em envelopes;
  • A correspondência é mais rápida e frequente;
  • Permite o desenrolar de uma conversa com o ritmo que desejarmos;
  • Não de dá o perigo do carteiro perder a correspondência (ou ele próprio, na bebida, numa rixa ou a considerar uma vida de espiritualismo bucólico ao observar a majestade natural das montanhas dos Alpes) e ficarmos anos à espera da resposta, ficando a pensar que o nosso destinatário não nos quis responder por ofensa ou porque nos deve dinheiro ou porque faleceu;
  • Qualquer confusão ou mal-entendido poderá facilmente ser resolvido;
  • Podemos, sempre que quisermos, terminar a conversa e iniciar uma conversação verbal.

Dito isto, e, meu caro, não fique ofendido com a indiscrição, espero que tenha ficado esclarecido e que na próxima carta esteja mais desinibido.

A propósito, ainda não lhe contei. Arranjei finalmente maneira de conseguir pagar o meu moinho; a Sra. Conchita contou-me que o Ludovico deve-se ficar por Alcover, visto que conheceu lá um alfaiate e ficou a trabalhar na sua loja. Quando soube disto pensei: se o homem deixa ao desleixado do Ludovico a responsabilidade de uma parte do seu negócio e da sua loja, é porque deve, com certeza ser um pouco senil. Hei-de passar por lá talvez amanhã e vender-lhe os meus casacos velhos a bom preço. Peço à Nancy para lhes dar uma limpeza e puxar um pouco de lustro e estão como novos, os velhos.

Um abraço,

Dalí


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