Arquivos Diários: Janeiro 8, 2011

Cartas de 1953 – 6 de Junho (2)

Montsant, 6 de Junho de 1953

Ao Sr. Bixo

Vejo que finalmente o convenci a escrever-me. Não sei porque teimou tanto – creio que esse é um dos pontos fulcrais da sua carta. Apreciei deveras a sua escrita, mas é de meu ver que se encontra enormemente condicionada pela sua teimosia. Até parece que foi obrigado a escrevê-la, é o que denoto… e isso leva à perda da espontaneidade necessária em qualquer rabisco. Quanto ao seu perfeitamente refutável argumento de que, e passo a citar, “trocar correspondência com uma pessoa que vive a menos de 50 metros é idiota e não faz qualquer sentido, se nos vemos praticamente todos os dias”, tive a amabilidade de elaborar uma lista de vantagens de escrever a quem resida no mesmo espaço geográfico:

  • Não se gasta dinheiro em selos;
  • “     “       “              “        em envelopes;
  • A correspondência é mais rápida e frequente;
  • Permite o desenrolar de uma conversa com o ritmo que desejarmos;
  • Não de dá o perigo do carteiro perder a correspondência (ou ele próprio, na bebida, numa rixa ou a considerar uma vida de espiritualismo bucólico ao observar a majestade natural das montanhas dos Alpes) e ficarmos anos à espera da resposta, ficando a pensar que o nosso destinatário não nos quis responder por ofensa ou porque nos deve dinheiro ou porque faleceu;
  • Qualquer confusão ou mal-entendido poderá facilmente ser resolvido;
  • Podemos, sempre que quisermos, terminar a conversa e iniciar uma conversação verbal.

Dito isto, e, meu caro, não fique ofendido com a indiscrição, espero que tenha ficado esclarecido e que na próxima carta esteja mais desinibido.

A propósito, ainda não lhe contei. Arranjei finalmente maneira de conseguir pagar o meu moinho; a Sra. Conchita contou-me que o Ludovico deve-se ficar por Alcover, visto que conheceu lá um alfaiate e ficou a trabalhar na sua loja. Quando soube disto pensei: se o homem deixa ao desleixado do Ludovico a responsabilidade de uma parte do seu negócio e da sua loja, é porque deve, com certeza ser um pouco senil. Hei-de passar por lá talvez amanhã e vender-lhe os meus casacos velhos a bom preço. Peço à Nancy para lhes dar uma limpeza e puxar um pouco de lustro e estão como novos, os velhos.

Um abraço,

Dalí


Cartas de 1953 – 6 de Maio

Montsant, 6 de Junho de 1953

Ao meu amável vizinho, Sr. Bixo

É incrível como a caneta dança! Ao escrever estas palavras que lê, vejo na tinta o rio Ebro a descer esses montes que vejo da janela do meu escritório, e se vai, ao ritmo destas mesmas palavras, formando, e molho ocasionalmente no tinteiro para lhe trazer leito. Poderá ser também uma libelinha, fazendo curvas e piques, voando indefinidamente sem direcção pelo meio das espigas. Sinto-me a própria folha de ulmeiro, vencida pelo Outono, desbravando as paisagens ao sabor do vento, rodopiando aleatoriamente em remoinhos e turbilhões, desfazendo-se misteriosamente em reticências…

Ah, sinto-me a própria natureza nestas divagações (como pode ver, hoje estou particularmente espirituoso). Espero que encontre um pedaço do seu tempo para as ler – escrevo-lhe a si pois a mais ninguém tenho que dirigir esta carta – a Nancy não sabe ler, o Ludovico ainda não voltou do seu negócio em Alcover e o amigo Rómulo… bem, não o iria aborrecer com escritas menores. Como sabe é um erudito (encontra-se neste momento a estudar um ensaio de um ucraniano manhoso, como ele teima em bradar). Espero, meu caro, que não a aborreçam a si! Sentir-me-ia mal comigo mesmo se assim o fosse. A verdade é que escrevi nestas últimas semanas umas quantas cartas de seguida. Comecei por escrever a um tipo em Castelló, de que ouvi falar que percebe bastante de vinhos e seria bom alguém com quem partilhar a minha bela actividade, mas ao que parece muda de casa de duas em duas semanas, pois arranja sempre problemas com a gente das tavernas. Ou seja escrevi uma série delas por dever e, dei, surpreendentemente, por mim a escrever a quem me lembrasse, assim em catadupa, é curioso… Pus assunto em dia com praticamente todos os meus saudosos conhecidos. Senti um súbito impulso. E já não me lembro de mais ninguém a quem escrever, sendo que ainda aguardo resposta da maior parte deles.

Ah, escrever. Não compreendo como poderá a escrita ser uma invenção do homem… É tão natural e instintiva que me sinto mais próximo da natureza, como se estivesse deitado num prado de palha ao sol, num êxtase de liberdade. É de meu ver que todos os animais e até inclusive as plantas escrevem, seja de que forma. É realmente um pensamento curioso, ora aqui estou eu armado em filósofo! São apenas divagares, nunca me tinham passado estas coisas pela cabeça.

Bem, já estou quase no final da folha e mais sítio não tenho onde escrever.

Um abraço,
(Hoje faz um dia particularmente fulvo, não acha?)

Dalí


Cartas de Rogério Azinheira – I

Para Carlos Pereira
 

Na fachada leio – “Musió Nacional”. A arcaica fachada, feita inteiramente de pedra e tijolo faz-me pensar em todos os tijolos que ali estão; todos, e cada um. O importante papel que cada um daqueles tijolos teve  ao suportar aquele centro, aquele lugar onde tudo e todos  eles se juntam para me mostrarem segundos e milénios de História. E, é precisamente nestes momentos de reflexões inquietantes que eu penso: Que fiz eu? Terei eu ao longo de toda esta vida carregado, ao menos, um único destes tijolos? Terei fabricado, ou ajudado a fabricar um único que seja?; porque é que nunca havia sequer pensado em tais coisas…
                 Todas as fotografias são tiradas, os “Hola”, “Buenos días” e “Gracias” entregues, as lembranças e postais comprados, as malas feitas e “la despedida”…
 

 

De volta a Lisboa vejo o tempo passar. Quando parti, o Tejo parecia mais claro; o céu, as caras e os pombos, mais claros. Tudo me parece sujo e impróprio, e todos estes pensamentos se vêem ao espelho e nem um pingo de luz vêem em todo esse abundante suor “seco” que a minha testa chora e o chão consome. Faço caretas às pessoas que me rodeiam, procurando o mais habilmente extorquir-me tudo em tudo. Com os “Hola”, “Buenos días” e “Gracias” postos de parte, a minha linguagem ganha um pouco mais de dimensão, alargando-se a “Olá, tudo bem?”, “Bom dia” e “Obrigado”. Tudo isto pareceria um tanto sarcástico da minha parte mas, isto, apenas se não o fosse de facto. Pensando no meu lugar nesta “rua”, babo-me em ideias estapafúrdias enquanto oiço as notícias, e pergunto-me acerca do meu lugar neste mundo – Será tudo indumentária? E insignificante?…
                  Nas vagas reminiscências do antigamente algo me traz azia, dores de cabeça e depressão – creio que se não houvesse chão me afundaria p’ró rés-do-chão…, literalmente. A minha vida em abundância não me trouxe mais que, acerca dela, ignorância.

 

 

À parte disto, sinto-me mais preguiçoso que o habitual, sinto que cada pêlo no meu corpo está hirto e encravado, sentindo-me, talvez, como um porco espinho…, – para além de que dá comichão!, por vezes. De momento, não ando a ver mulher alguma, nem a trocar correspondência. Sentindo na pele uma áspera saudade do toque macio de dedos finos. Todo o calor se me desvanece em horas pouco vigorantes, passadas a ler e fumar cachimbo junto ao aquecedor. Ah! Sim…, devo também dizer-te que ultimamente ganhei, por gosto, o hábito de beber, após acordar, três copos de uísque, demonstrando certa preferência pelo irlandês. Com a guerra popularizada por toda essa Europa fora sinto que, cada vez mais, as paredes do meu quarto se tornam cinzentas; e o mesmo se sucede pelas calçadas fora… – Quiçá, manchadas por toda a pólvora queimada nos campos de batalha (donde oiço dizer que muitos morrem…), e que, subitamente, e, aparentemente, se tornaram no meu insólito mundinho de ridículas susceptibilidades emocionais.

Embora seja com extrema ansiedade que aguardarei essa tua resposta, não te apresses por razão alguma, pois sei que o teu trabalho não permite, por vezes, certas facilidades, exigindo bastante do teu corpo.

 

Beijos,
Do teu eterno amigo,

Rogério Azinheira

[14 de Outubro de 1943, Lisboa]

Zen


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