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Ali está! A maior “coisa” da cansada região. Alta e esguia, construção abatida e rígida, impávida ao toque. Olhos cerrados no horizonte e uma boca fechada que parece suspirar o tempo, soluçando de quando a quando as saudades da humanidade e da falta de ausência dum sorriso, como se se tratasse de algo cobarde e ignóbil… Cabelos baços vermelhos lacados pela desgraça, o vento tanto e a arrogância. Aquelas mamas… Hey! Não tem mamas! Fogo, isto não é uma mulher… é uma torre!
Há tantos tontos dias que me arrastava por aquelas bandas de silêncio com o fortuito intuito de sair dali. Como num quadro de Dalí – eu não escolhera chegar aqui, mas cheguei. No âmago da situação, a explicação é implicitamente… Razoável; sendo que, um dia saí da cama, do quarto-casa prédio-rua-freguesia-concelho… Do mundo! E caminhei apenas por sentir que, pessoalmente, precisava urgentemente de pulsação no intravenoso (uma Corrida).
De início fui atingido por um tiro no estômago, Ai! Que fome… depois pelo sono e afins sem fim, como a minha ambígua ambição. Por terras onde a terra é simples que choca, e demais repleta de altos e baixos, lamúrias e palavras daninhas, críticas à razão que eu colho e tento comer, em vão… no vão das escadas me observo obscuro, e recato escondido do itinerário, tal é o medo de regressar para onde vim. Isso sim, assusta-me, palavra que sim.
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As terras nunca pareceram tão ligadas à Terra; o céu esbugalhado, olha-me como uma criança surpresa, Surpresa! Pelos vistos sou sua presa, pois parece não querer cessar as suas brincadeiras com nuvens, desenhando nelas estúpidas figuras que meus olhos cativam e prometem perdição; desenhando com elas chuvas macabras ou um sol cuja radiação me penetra o cérebro até à loucura de dizer que sim, Sim! A isto tudo… Caminho já sem sentidos excepto o sexto, apalpando a brisa na cara de tempos a tempos – irregular -; respiro fundo mas não sinto o ar entrar, o que também não faz espantar uma pessoa que seja e se digne, pois aqui só estou eu, penso.
Há coisa de uns dias decidi regressar, e, com a meia volta dada foi só andar em frente. Ao andar em frente, acabei por não voltar para trás, mas sim continuar em frente (o que me levou mais ou menos ao mesmo lugar, aqui, acolá…). Enxergando já o desespero da cara, aquela expressão obscena e repulsiva, compus-me a esquecer a esperança e apenas cantarolar desafinado, como o típico fato e gravata amarrotados ao desenrascar numa rasca festa na tasca, incompreendidos como milhões de beijos em fechaduras que me trancaram e trancam no perplexo… Há dias encontrei uma árvore, raquítica alta e bastante vistosa (podre por sinal…) e num pleonasmo de ignorância obtusa resolvi subi-la para avistar o horizonte. E engraçado como parece, estava ainda a subir, já estava a descer, PUM! Definitivamente algo me prende neste local, e me impede de pedir auxílio ao que seja, e a quem seja, incluindo eu próprio… (sou assim de tal forma inútil…). Levantei-me como se nada fosse e, nada foi, apenas parecia que o céu tinha descido à terra, ou quiçá tenha a terra subido… mas parecia agora estar envolvido numa nébula de sarcasmo e vergonha que pairava sobre minha cabeça e parecia rir sempre que não estava a olhar, estou louco (ou então é do nevoeiro).Ao longe avistei o nada.
-Hummm, devo estar perto.
E foi aí que após tão tortuosa e exaustiva caminhada me cruzei com um abismo e lhe perguntei as horas, o nome… mas nem um eco que se preze, porra, que lata! Ia a virar-me quando caí fulminantemente rápido na lentidão do abismo, vendo a minha cara reflectida em toda e qualquer superfície visível do meu raio de visão. Lá estava eu, ali, acolá e aqui…, epá! ‘Tou a precisar de fazer a barba.
2
Cair julgo que não; a modos que, sem modos, aterrei, sem dizer bom dia nem boa tarde. À aproximação, inspeccionei a estatura, os traços, a altura e, ia morrendo da circunstância; tão obtuso que fiquei ao tomar consciência de que era uma torre. Janelas, portas, telhado. Tudo era milimetricamente feminino, no entanto chamei-lhe Jónico: base – pés grandes; fuste – corpo comprido e esguio sensual; capitel – enfeitada carinha laroca. Os dias e noites passam, inóspitos e, sem luz que exceda a média luz (não há noites) – caóticos e indecentes, insuficientes. Os dias parecem arrastar a minha mágoa pelo sempre, pois o sol não se mexe… As horas não passam… Só as malvadas nuvens se mexem! Sempre dum lado para outro! Chuva, sol, chuva, sol, raios as partam! As malvadas nuvens… Nisto, um dia resolvo chegar perto de Jónico.
- Boas noites!
E ninguém responde, pelo que solto mais um:
-Boa noite! – Exclamo já meio enfadado.
-Oh! Desprezo, mas porquê tanta repúdia para comigo? Porquê o meu rótulo de insignificância tal que, nem ao menos mereço ser ouvido por um raio de uma torre no meio desta merda sem fim? Mas porquê…?
E a porta abre, rangendo de forma colossal. Fazem soar-se pelos degraus a descer, o eco das minhas palavras – nervosas e irritadas – proferidas tão vagamente como as mãos que, em busca de apoios, tacteiam as paredes aleatoriamente. “Isto deve ser um teste, só pode…”, e, realmente, naquela altura só podia. Mais uma vez recomeça a caminhada a que tanto me habituei; o raio da marcha do pinguim que já pareço – com asas mas sem voar…
Começo a sentir, como que um trovejar interno, uma revolução intestinal que parece pronta a fazer cuspir as entranhas pelo umbigo, que me enjoa e atormenta em reticências… E, por falar nisso; estou de novo a jogar à “cabra cega”…
-Cabra da torre! Escura que nem breu!
Percorro horas pela escada sem corrimão, encaracolada na imaculável paciência que disponho para não desistir, enquanto calmamente me afundo… Desço e desço o mais baixo que se pode descer, o rebaixar de pão a migalha, à mais ínfima espécie imaginável… De repente paro um segundo, e encosto me à parede;
-Ahh, ahh… – Arfando ininterruptamente, e com fortes batimentos cardíacos do meu fétido coração de pedra; um ponto negro estilo “pitch black”, de facto, negro como nem nunca o Pintor viu!
Receio pela primeira vez, que toda a esta morte foi totalmente desprovida de significado…
-Mas eu estou morto?
-Não! – Respondo para me relaxar… Bem, ao menos estou sempre aqui para me ajudar, pois, afinal os amigos são para as ocasiões. Hesito de novo, e repito a hesitação… e,
finalmente compenetrando-me a entrar, fico; caindo num imenso vórtex que me atira de costas para a catacumba, PUM! Tudo a minha volta está a em derrocada e a ruir; o previsível fim da torre, comigo lá dentro.
-Ai Jónico, que já foste c’o caralho!
E sim, só para ser do contra, ele manteve-se erecto, tendo, pelos vistos, simulado apenas toda a catástrofe para me provocar pânico… De repente, vejo-me no cimo da torre.
Descendo à dias a fio a tenebrosa escada, encontro-me agora no cimo da torre, por entre as nébulas do desconhecido e do inconcreto; como que pendurado por um único fio, sozinho, débil e desamparado no meio do Universo, infinito.
3
Fechado na sua indecência, ele chora enquanto sorri, exibindo em torno de si um ténue e simpático arco-íris. Pensa que… – Não pensa, não tem cabeça para isso, é o processo “Kafka Oculto”! Não age, só mexe e, expira por todos os lados convulsões pouco comedidas; mexe, remexe, cresce… e cai da torre!
Ao olhar os flancos, repara que está de novo na torre. Não escapa. É como um Super-Homem ao contrário – sem capa -, numa copa de palavras que designam o que de negativo há em tudo, o que mexe e remexe, o que “cresce”…
-Sinceramente digam-me: Que acharia Kafka da barata em que me transformei? Aprendendo a usar as pequenas inúmeras patas/patias para me deslocar, vacilante no tecto/chão destas quatro paredes a que me confinei e, perdendo toda e qualquer noção de tudo negando a minha liberdade? Exercendo-a de forma fina, – quase feminina – e pouco compreensiva?
-Que diria eu…?
-Que poderia dizer uma coisa, que chegou de “continua-quedas” a um lugar onde apenas fomentou relações com uma torre…? Aaaaaaíííííí! Que RAIVA! Quero morrer e não morro, quero sair e só entro, quero comer e não tenho fome, quero ver e não vejo, quero viver e não morro;… Será esta a sensação de alguém à muito pintado e preso num quadro?
Zen