Publicado por: O Insaciavel Diglot | Novembro 21, 2009

Como te chamas poesia?

Solta a suposição
na sombra da alegoria,
mais uma epopeia,
a apneia policromática
a bêbeda simpatia
na pele d’um daltónico.
Conclusão que chego
ao não chegar a lado algum,
ao engraxar os sapatos
para caminhar por um fio.
24 as badaladas
são pedradas na noite estéril
noite em que pela virgem vez deixo de ver o sol,
quem diria,
a lua também ilumina!
desde esse dia
qualquer coisa em mim germina,
uma planta que órgãos muta
na permuta irracional de uma imagem por mil palavras
fotogramas fulcralmente necessários, fisioilógicamente,
desejo de expressar quem sou e quero ser
para assim de uma vez por todas descobrir quem sou e quero ser
o objectivo por trás de tanto fanático subjectivismo conceptual.
Beijinhos e abraços,
Zen
Publicado por: O Insaciavel Diglot | Novembro 14, 2009

CASA (pt. 1)

I

“Noite de Inverno”

Pessoas apontam.
Árvores passam.
Folhas no chão.
Calçada imperfeita.
Chuva nos candeeiros.
Sombras no alcatrão.
Carros parados.
Ruas vazias.
Paredes de pinturas.
Pinturas de parede.
Frio nos bolsos.
Casaco velho.
Ferrugem na grade.
Cabelo molhado.
Correria nocturna.
Murmúrios.
Tons escuros.
Abraço sujo.
Tilintar das chaves.
Só vejo dois olhos.
Mãos no vidro, embaciado.
Água no vidro, escorrendo.
Fendas.
Luzes.
Pequenas luzes.
Rio preto.
Beco escuro.
Neblina.
Um beijo.
Só um beijo.

Boris

Publicado por: O Insaciavel Diglot | Novembro 7, 2009

Nova velha casa

Já é tarde, o sol derrete inconformadamente, reflectindo nalgumas nuvens a sua pureza, lixívia-brilhante.

Com um tempo tão bom, apetecia-me ficar em casa, a olhá-los de longe, menosprezando-os, mentindo-lhes, protegido pela minha janela; que bela invenção! Ah ah, aqui não me apanhas!, mas, inconformado como a nossa estrela, acabei por sair…

Talvez não seja assim tão tarde, senão já aqueles rouxinóis se tinham calado e… Não me perguntem mais as horas! Estou farto disto! Matei o meu relógio! Não tenho cigarros! Mas tenho lume, minha senhora, se precisar… Ando sempre prevenido para as mais diversas ocasiões; quem sabe se não tenho a necessidade de levar “emprestada” uma garrafa de vinho ao merceeiro? Ou de curar a esquizofrenia?, onde iria eu arranjar um saca-rolhas ou um super  ego enquanto corria?

Finalmente chega o comboio. Partilho da sua despreocupação e solenidade, também eu cheguei e já tinha partido a tal locomotiva que me deveria estar a transportar. Afinal, nunca nos apressamos quando se trata de chegar atrasado, ouvi alguém dizer… As portas abrem vio(lentamente); entro maquinalmente, fruto de um hábito inútil.

Ah…

Mas espera; rouxinóis?!

Onde andarão eles? Será que vivem nestes prédios enormes? Será que agora fazem ninhos no cimento? Ora essa! O cimento é nosso! Querem construir casas, façam-no, mas não nos roubem ideias! Ah, malditos rouxinóis. Aposto que vivem conspirando com a ambição de nos controlar… Mas não, nunca serei submisso de um desprezível pássaro!…

Este comboio também não é o tipo mais agradável; não consigo pensar como deve ser com esta guinchadeira; estes barulhos dão-me sempre… hãn?… não sei… talvez… sono… por isso… acabo… entre… e…

(Estado mental irregular, incompleto. Fundo branco, pano-horizonte, sem cor abstracta. Sem chão nem tecto, 6ª dimensão é a minha esfera. Sozinho neste não-mundo infinito. Alguém chega, passa, perto. Olha-me de lado. Apenas captei a presença dos seus olhos, desconfiados e ausentes, a gabardina e o cachimbo-vulcão, cospe fogo, labaredas arco-íris que me atingem o sistema nervoso; intravenoso sujeito que se interpôs no meu nevoeiro. Eis que surge outro, vindo do nada, nada esse que ainda há pouco tudo era):

-O seu bilhete?

Bilhete?!

Oiço as portas a abrirem com uma rapidez suave. Corro – fora deste pedaço de alumínio!; para o meio dos prédios. Para… esta coisa… que é isto? Dou de caras com uma nova raça de edifícios e seres suburbanos. Examino-os; cor pálida destroçada, cinzenta, quase ausente, desvanecendo de alto a baixo. Vidros partidos, alguns literalmente, outros, partidos de vida e brilho. Alguns veículos amachucados pela sucata forasteira, abandonados ao sabor do quotidiano, viajando infinitamente no mesmo ponto. O alcatrão velho, que até o seu preto perdeu a escuridão. A calçada desfeita em pedras mortas. E o vazio; na rua passam pessoas que nem pessoas são. Seres de incontável obediência à soberana rotina, escravos do seu meio de obstinada repetição, caminhando em linha recta.

Que é isto?

Evito perguntar onde estou. Provavelmente não iria compreender ninguém aqui. Onde estão os rouxinóis? Agora já os entendo… Sinto falta da ausência de atenção, pois nem este desprezo é humano, desprezo plástico. Caminham todos com a vida numa pasta e a alma numa algibeira. Qual será? Que suja gabardina me dirá onde estou? Em que algibeira enfiar a mão e descobrir e sentido, a direcção, desta cidade? Não me olhem assim! Sou estrangeiro aqui, mas apenas quero saber para onde vos levam… E não me façam perguntas difíceis; quem sou eu?, de onde venho?, o que faço?… Não consigo responder a trivialidades sem entrar num total estado psicadélico. Que se fodam trivialidades! O belo, o antigo, o orgulho e as metáforas. São a minha fonte de vida. Mas, onde estão as metáforas aqui? Para onde foram os rouxinóis? E, só ao procurá-los, reparo naquele vidro, intacto e brilhante. Áurea agreste a todos estes tristes caminhantes; celeste à minha visão. Uma gota de paraíso pairando na torneira, sem cair nunca, sem evaporar, esperando uma boca sedenta. E lá vejo dois olhos. Agora realizo que esta cidade, estas ruas, que tanta vez me viram passar, esta natureza morta, que todos os dias, impreterivelmente passou diante da minha visão era a cidade escura, que sempre tratei por tu, sem nunca a conhecer. A cidade onde fui mesmo sem ser. Onde vivi sem me dar conta.

E lá vejo dois olhos. Dois olhos que tão bem conheço do meu espelho.

Boris

E é desta maneira que informo, que após tal aventura, tal choque; ao olhar realmente com “olhos de ver” para onde vivemos e descobrir que nada desta cidade faz sentido, nada (mais) pude escrever, senão esta reflexão da minha iluminação.

Publicado por: O Insaciavel Diglot | Novembro 7, 2009

Yaaaa

Show your true colors
the rainbow deep inside you
if you have no callers and feel smaller,
don’t feel alone, we are two.

Zen

Publicado por: O Insaciavel Diglot | Novembro 7, 2009

Retrato não Auto

De simpático engenho,
estrura média, cabelo castanho.
calmo no passo,
assim sou, sempre pronto para um abraço!

Zen

Publicado por: O Insaciavel Diglot | Novembro 7, 2009

Auto-Retrato

De hostil existência,
só esta mentira me pesa na consciência.
Meu exercício, meus passivos sinais,
assim me vês de sorriso na cara.
De outrora brinquei o sério,
sinais vitais,
com tal brincadeira me enganara
em tempos de danoninho…

Zen
Publicado por: O Insaciavel Diglot | Outubro 31, 2009

Poema em circunferência

Quantos fomos,
Que não fomos tantos
Aonde tantos foram?

O que tanto quisemos ser,
Que sem querer,
O fomos sem saber…

E o sabor de ser quem sei,
Sem saber que somos mais.
Quantos mais não o são?

Quantos fomos,
Que não fomos tantos
Aonde tantos foram?…

Boris

Publicado por: O Insaciavel Diglot | Outubro 17, 2009

Revolução-Devolução

Muros embriagados
Embebidos em neve,
Enjaulados no passado;
Já faz tempo; não faz greve.

Quem é esta máquina que me chama?
Entornada em depressão,
Em mil faces morta,
Escondida no chão.

Os cigarros aquecem a demência;
O sabor acre do serviço.
O fumo; incenso cansado.
Ser-loucomotiva, submisso.

Corvos-correio entoam provérbios
Sobre o destino e o destino,
Sem mais vontade de saber
Obstinadamente o nosso hino

Sem emanar, existir…
Sem razão de viver…
Para quê viver da razão?
Na desgraça do Saber?

O peso do cimento nas costas.
O passar violento dos anos, destemidas flechas.
O desterrado pensamento.
O arame farpado nas brechas.

Sem saída,
Sem identidade,
Só uma infeliz paixão…

Boris

Publicado por: O Insaciavel Diglot | Outubro 17, 2009

Lebre de Abril

Sonho ao trópico
a bússola do oriente.
Na equatorial estepe
minhas flores, meu sábado emana
são meus todos fins-de-semana,
poemas da savana!

Zen

Publicado por: O Insaciavel Diglot | Outubro 17, 2009

Fábrica Febril

A questão da razão,
é o peso da emoção.

A balança da intenção
e a intensidade da situação.

O insensível incenso que queimo hoje na mão,
sem consenso com sanção,
num caso em torno da questão
a resposta é, e será não.

Zen

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